quinta-feira, 2 de julho de 2026

Geopolítica e Inteligência Artificial: A infraestrutura invisível do século XXI


A infraestrutura invisível e 
os riscos de dependência da economia digital.

Durante grande parte da história econômica, as disputas geopolíticas estiveram associadas ao controle de ativos visíveis. Territórios, recursos minerais, fontes de energia, portos, ferrovias e cadeias industriais moldaram a ascensão de nações e influenciaram estratégias empresariais ao redor do mundo.

No século XXI, entretanto, uma transformação silenciosa ou nem tanto começa a alterar essa lógica. Uma parcela crescente das atividades econômicas passou a depender de estruturas digitais que raramente aparecem no centro dos debates estratégicos, apesar de sua importância crescente.

Nesse contexto, a inteligência artificial costuma ser apresentada como uma ferramenta capaz de ampliar significativamente a produtividade. Empresas utilizariam IA para automatizar tarefas, acelerar processos, reduzir custos e apoiar decisões. A narrativa predominante tem se concentrado no enxugamento que a tecnologia pode originar, embora muito mais possa ser realizado.

Essa visão mostra-se insuficiente. À medida que a inteligência artificial se integra a operações críticas, modelos de negócio e sistemas decisórios, e à medida que cresce a compreensão de seu potencial, ela também amplia sua utilidade. Com o uso potencializado, a tecnologia evolui de ferramenta e assume características de infraestrutura econômica.

A infraestrutura invisível

A diferença entre uma ferramenta e uma infraestrutura é profunda. Ferramentas podem ser substituídas. Infraestruturas tornam-se tão incorporadas ao funcionamento da sociedade que sua interrupção compromete atividades inteiras. Quando uma tecnologia passa a ser indispensável, ela deixa de ser apenas tecnologia e adquire o caráter de infraestrutura.

Foi assim com a energia elétrica, as telecomunicações, a internet. Poucas organizações refletem diariamente sobre sua dependência dessas estruturas, mas praticamente nenhuma consegue operar adequadamente sem elas.

A inteligência artificial parece caminhar na mesma direção. Sistemas de crédito, logística, segurança digital, compliance, atendimento ao consumidor, análise jurídica, auditoria, saúde, educação e gestão de riscos já incorporam, em diferentes níveis, recursos baseados em IA. E quanto mais essa integração avança, mais a inteligência artificial deixa de ser apenas uma aplicação tecnológica, tornando-se uma camada invisível da economia digital.

A dimensão geopolítica

Essa transformação tem uma consequência importante: toda infraestrutura relevante acaba adquirindo dimensão geopolítica. As ferrovias foram estratégicas no século XIX. O petróleo assumiu esse papel durante grande parte do século XX e até atualmente. Nos dias atuais, processadores avançados, centros de dados, computação em nuvem, conectividade global e modelos de inteligência artificial passam a integrar uma nova categoria de ativos estratégicos.

A infraestrutura que sustenta a IA não é abstrata. Ela está localizada em determinados países, depende de cadeias específicas de fornecimento, opera sob determinados regimes regulatórios e é controlada por um número relativamente reduzido de organizações.

Além disso, a expansão da inteligência artificial depende de uma infraestrutura física frequentemente esquecida: grandes quantidades de energia elétrica para alimentar os centros de processamento e disponibilidade hídrica para o resfriamento dos data centers. Algoritmos sofisticados somente produzem resultados quando sustentados por uma base energética e logística capaz de operar em escala.

Assim, decisões tomadas por governos, reguladores ou grandes fornecedores globais podem produzir efeitos econômicos relevantes muito além de suas fronteiras nacionais.

A provocação para os países

Essa realidade traz uma provocação para os países. Em uma economia cada vez mais digital, o conceito de soberania econômica talvez precise incorporar novas dimensões relacionadas à infraestrutura tecnológica. Não se trata de defender isolamento, protecionismo ou autossuficiência absoluta. O desafio consiste em compreender quais dependências são aceitáveis, quais são estratégicas e quais podem se transformar em vulnerabilidades relevantes.

Países que consomem tecnologias avançadas sem compreender as estruturas que as sustentam correm o risco de descobrir, em momentos de instabilidade, que parte de sua competitividade depende de decisões tomadas fora de seu alcance.

A provocação para as empresas

A reflexão também se aplica às empresas. A transformação digital levou organizações de todos os setores a ampliar significativamente sua adoção de inteligência artificial e de serviços tecnológicos avançados. O movimento é positivo e, em muitos casos, indispensável.

Contudo, a velocidade da inovação não é necessariamente acompanhada pela mesma velocidade com que são identificadas as dependências críticas. Uma empresa pode utilizar diferentes plataformas, contratar diversos fornecedores e acreditar que diversificou seus riscos tecnológicos.

Entretanto, esses fornecedores podem depender dos mesmos centros de processamento de dados, dos mesmos semicondutores, das mesmas infraestruturas de nuvem ou até dos mesmos modelos de inteligência artificial. Nessas circunstâncias, a diversificação pode ser mais aparente do que real.

Imaginemos uma instituição financeira que utiliza IA para análise de crédito, prevenção a fraudes, atendimento digital e monitoramento de transações. Embora essas aplicações pareçam distintas, todas podem depender de uma mesma infraestrutura de nuvem, de determinados chips ou de modelos concentrados em poucos fornecedores globais.

O mesmo pode ocorrer em uma empresa de saúde, logística ou varejo. Sistemas de apoio diagnóstico, previsão de demanda, definição de rotas, precificação dinâmica, gestão de estoques e atendimento ao consumidor podem parecer independentes, mas compartilhar bases tecnológicas comuns, criando pontos de vulnerabilidade pouco visíveis.

A provocação para os líderes organizacionais

Essa constatação conduz diretamente ao papel dos conselhos de administração e das diretorias executivas, quando a organização não tem o seu conselho. Durante décadas, a governança corporativa concentrou sua atenção em riscos financeiros, regulatórios, operacionais, ambientais e reputacionais. A ascensão da IA sugere o surgimento de uma nova dimensão estratégica: a administração das dependências tecnológicas que sustentam a geração de valor das organizações.

A boa governança não exige que líderes se tornem especialistas em engenharia, programação ou ciência de dados. Requer, porém, que saibam formular perguntas relevantes. Quais processos críticos dependem de IA? Existe concentração excessiva em determinados fornecedores? Há alternativas viáveis em caso de indisponibilidade? Os riscos de continuidade estão adequadamente mapeados?

Uma questão de governança

No passado, o poder econômico esteve associado ao controle de rotas comerciais, fontes de energia e cadeias industriais. No presente século, uma parcela crescente desse poder poderá estar relacionada ao controle da infraestrutura digital que sustenta a inteligência artificial.

Petróleo, eletricidade, água e capacidade computacional passam, cada vez mais, a integrar um mesmo sistema estratégico. Sem energia abundante, sem infraestrutura física e sem disponibilidade hídrica para sustentar grandes centros de processamento, a inteligência artificial simplesmente não alcança escala.

Talvez a infraestrutura mais importante de uma época seja aquela que se torna invisível porque todos dependem dela. Se essa hipótese estiver correta, compreender as dependências da inteligência artificial deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a ser uma questão de governança corporativa, estratégia e soberania econômica.


Mônica Mansur Brandão