Processos formais, reportes e relatórios
não mostram, de fato, como decisões são tomadas.
Organizações perseguem resultados por meio de ritos nem sempre plenamente compreendidos. Crescimento, lucratividade, inovação, reputação e longevidade ocupam o centro das atenções de sócios, conselhos de administração e diretorias executivas. Entretanto, muito antes de qualquer indicador aparecer em um relatório ou de qualquer meta ser alcançada, existe um processo invisível que define o futuro das organizações: a forma como elas decidem.
Essa dimensão raramente ganha destaque nas demonstrações financeiras ou nos discursos institucionais. Ela se manifesta de maneira discreta a cada contratação, investimento, aquisição, lançamento de produto, definição estratégica ou gestão de crise. Antes de produzir resultados, toda organização produz decisões. E, em que pesem os processos formais, as atas e os necessários registros, a efetiva forma como as decisões foram tomadas dificilmente se torna realmente visível – mesmo para quem decidiu.
O Homem que Mudou o Jogo
Esta é a reflexão que nos ocorre considerando Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo (2011). Ambientado no universo do beisebol, o filme oferece uma das mais instigantes lições sobre liderança, estratégia e transformação organizacional já retratadas pelo cinema.
Inspirado em fatos reais, Moneyball acompanha Billy Beane (Brad Pitt), gerente-geral do Oakland Athletics, que precisava competir com recursos muito inferiores aos de seus concorrentes. Billy decide fazer uma pergunta aparentemente simples: estamos mesmo avaliando o talento da maneira correta? E essa pergunta muda tudo.
Billy Beane não é o único personagem central do filme. Peter Brand (Jonah Hill) é imprescindível à narrativa. É ele o especialista em economia e análise estatística que faz pesquisas técnicas para Beane. Foi por intermédio de seu conhecimento técnico que o clube passou a substituir avaliações intuitivas por modelos quantitativos baseados em evidências, identificando talentos até então ignorados pelos métodos tradicionais de observação.
Durante décadas, o mercado esportivo havia construído critérios tradicionais para identificar bons jogadores de beisebol. O problema não era a ausência de conhecimento, mas a confiança excessiva em modelos que já não eram suficientemente questionados. Billy Beane não encontrou necessariamente jogadores melhores: encontrou um modo melhor de decidir.
Ao substituir impressões consolidadas por evidências empíricas sustentadas por métodos estatísticos, descobriu atletas realmente talentosos, ignorados pelos métodos tradicionais. A inovação não estava apenas nos jogadores, mas no processo decisório – e esta é a maior contribuição do filme para a governança e a gestão corporativas. A qualidade das decisões é central quando se pensa na sustentabilidade e no desempenho das organizações.
Sobre decisões fundamentadas
Decisões nascem muito antes das reuniões em que serão aprovadas. Começam na forma como as informações são coletadas, nos indicadores escolhidos, nos incentivos criados, na cultura organizacional, nos vieses presentes e na disposição de rever convicções diante de novas evidências. Esta é a governança invisível das decisões, que não aparece nos organogramas ou nas atas das reuniões, mas influencia silenciosamente cada escolha realizada pela organização.
Importante: fundamentar decisões de forma técnica não assegura escolhas idênticas ou resultados semelhantes. Organizações diferentes, com diferentes decisores, diante das mesmas informações, podem tomar decisões substancialmente distintas, já que interpretam fatos e dados a partir de culturas, valores, incentivos e processos decisórios também distintos.
O conflito retratado em Moneyball ilustra exatamente essa realidade: não foi um embate entre pessoas e números, mas entre duas formas de compreender a decisão. Essa tensão continua presente nas organizações contemporâneas. Quantas decisões ainda são tomadas porque “sempre foi assim”? Quantas oportunidades permanecem invisíveis porque os critérios antigos continuam parecendo seguros?
Boa governança e boa gestão não eliminam a experiência humana nem transformam decisões em operações matemáticas. Seu papel é reduzir vieses, ampliar a qualidade das informações e criar ambientes em que argumentos prevaleçam sobre hierarquias, evidências tenham mais força que intuições não testadas e perguntas difíceis não sejam tratadas como ameaças.
Muitos dados, padrões invisíveis e a responsabilidade humana
Atualmente, organizações acumulam volumes gigantescos de dados e ferramentas analíticas identificam padrões antes invisíveis. Ainda assim, nenhuma tecnologia substitui a responsabilidade humana de decidir. A tecnologia amplia a capacidade de decidir. A vantagem competitiva mais duradoura nasce da capacidade institucional de aprender, revisar premissas, questionar certezas e transformar informação em discernimento.
Moneyball não é um filme sobre beisebol, mas sobre coragem para desafiar consensos e sobre maturidade para reconhecer que nem toda tradição é sabedoria, assim como nem toda inovação é ruptura responsável. Resultados impressionam, mas são as decisões – moldadas por fatores que quase ninguém vê – que silenciosamente constroem o futuro das organizações. A vantagem competitiva começa antes da estratégia: no modo como uma organização aprende a decidir.
Mônica Mansur Brandão
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