domingo, 19 de julho de 2026

Globalização reinventada, não extinta – diz a OCDE


A globalização não morreu: de acordo com a Organisation for Economic Cooperation and Development, os números provam. Contrariamente ao discurso que decreta o fim da globalização, os novos dados da OCDE sobre o Trade in Value Added ou Comércio em Valor Agregado (TiVA) revelam, segundo a entidade, outra situação.

Em 2022, a quota de valor agregado estrangeiro nas exportações das economias da OCDE atingiu 30,4% – o valor mais elevado desde 1995. A pandemia, as tensões geopolíticas e o discurso sobre reshoring (volta da produção ao país de origem) não provocaram um colapso das cadeias de valor; ao contrário, as empresas mantiveram-se globalmente integradas, mas com novas estratégias de administração de riscos.

Regionalização sim, mas sem ruptura global

Segundo a OCDE, observa-se um fortalecimento das cadeias regionais, especialmente na Europa e na Ásia. Países como Grécia, Bélgica e França aumentaram em cerca de 3% a quota de valor agregado europeu nas suas exportações, enquanto Japão e Coreia do Sul reforçaram a sua dependência de fornecedores do Leste e Sudeste Asiático.

Contudo, esses movimentos não equivaleriam a uma fragmentação do comércio mundial em blocos estanques. A evidência está em economias europeias como Eslovênia, Eslováquia e Hungria, que aumentaram a sua exposição a insumos asiáticos, e em países como México, Colômbia e Nova Zelândia, que seguiram trajetória semelhante. As redes produtivas permaneceram globalmente conectadas, mesmo com ajustes das empresas de suas fontes de abastecimento, a fim de mitigar vulnerabilidades.

Reconfiguração setorial: nem tudo muda da mesma forma

De acordo com a OCDE, a reconfiguração das cadeias de valor varia significativamente, conforme o setor estratégico. Em indústrias como petróleo, gás e produtos farmacêuticos, a quota de valor agregado dentro da OCDE aumentou de forma acentuada, refletindo um movimento seletivo de reequilíbrio. Em contrapartida, nos setores têxtil, equipamento elétrico, tecnologias de informação e comunicação, e em várias atividades de mineração, cresceu a dependência de valor agregado não-OCDE.

Essa dualidade demonstra que não estamos perante um desacoplamento generalizado, mas sim diante de um rebalanceamento seletivo, em que a procura interna da OCDE continua a depender substancialmente da produção externa em grande parte da economia.

O que a mudança significa: migração da eficiência à resiliência

A grande transformação em curso é qualitativa: as empresas estão a substituir a lógica exclusiva de eficiência por uma abordagem que combina eficiência com resiliência. As projeções para 2023-2024 sugerem que a quota de valor agregado estrangeiro se mantém elevada, mas com sinais precoces de estabilização.

As empresas parecem consolidar cadeias de abastecimento, reforçar ligações regionais onde a fiabilidade e a proximidade são mais críticas, e preservar conexões globais para garantir escala e competitividade. Esta é uma forma mais deliberada e calculada de globalização – não uma fuga do mundo, mas uma navegação mais consciente em seus riscos.

Globalização reinventada, não extinta 

Para a OCDE, a globalização não está em retrocesso, mas em reconfiguração. As cadeias regionais se aprofundaram, mas as redes produtivas continuam firmemente globais. O padrão que emerge não é o da desglobalização, mas sim o de uma globalização mais resiliente e moldada tanto pela segurança como pela competitividade. 
A transformação avança e a OCDE afirma que seguirá monitorando de perto como estes novos padrões de aprovisionamento afetam a integração das cadeias de abastecimento, a produtividade, as emissões globais e, em última instância, o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável. É essa vigilância que sugere o real recado do relatório: o futuro do comércio não será menos global – será mais inteligente e adaptativo.

Sobre governança corporativa

A OCDE afirmou, com dados, o que muitos boards ainda se recusam a admitir: perguntar "onde é mais barato produzir?" não basta. A pergunta que separa conselhos preparados dos que serão surpreendidos por surpresas é outra: "onde estamos expostos, e por quê?". Setores como energia e farmacêutico já se moveram, reconcentrando valor dentro do próprio bloco, a fim de reduzir riscos geopolíticos. Aqueles que ainda tratam o tema cadeia de suprimento como pauta operacional, estão defasados.

Para empresas brasileiras plugadas em cadeias globais, o convite é direto: due diligence de fornecedores não pode ser mero checklist anual, e concentração geográfica de insumos críticos merece o mesmo assento na mesa do comitê de riscos que qualquer exposição financeira séria. Reconfiguração de cadeia de valor não é assunto de caderno de economia, é pauta de geopolítica e de governança corporativa.


(Publicação OCDE)