sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sir Adrian Cadbury em defesa de regras para sustentar a confiança


Quando a confiança desaparece, 
a governança deixa de ser opcional.

Sir Adrian Cadbury foi uma das personalidades mais influentes da história da governança corporativa moderna. Empresário, autor e pensador da governança, além de presidente do comitê responsável pelo célebre Cadbury Report, publicado em 1992, seu nome tornou-se quase sinônimo do nascimento dos códigos contemporâneos de governança.

Se Adolf Berle e Gardiner Means explicaram a separação entre propriedade e controle, e Michael Jensen e William Meckling demonstraram os custos decorrentes dos conflitos de agência, foi Adrian Cadbury quem ajudou a transformar essas ideias em recomendações concretas para empresas, conselhos de administração e mercados de capitais. Seu maior legado foi defender que confiança não nasce da boa-fé dos administradores, mas da existência de estruturas capazes de sustentá-la.

Antes de se tornar referência mundial em governança corporativa, Adrian Cadbury construiu uma sólida trajetória empresarial. Integrante da tradicional família Cadbury, ingressou na Cadbury Ltd em 1958, tornou-se chairman da Companhia em 1965 e, após a fusão que criou a Cadbury Schweppes, em 1969, exerceu as funções de vice-presidente e diretor-geral até assumir a presidência do grupo, em 1974, cargo que ocupou até sua aposentadoria, em 1989.

Cadbury também participou de conselhos de grandes organizações, experiência que lhe permitiu compreender, na prática, os desafios enfrentados pelos administradores, investidores e conselheiros. Essa vivência empresarial diferenciou sua visão: sua preocupação nunca foi criar modelos excessivamente teóricos, mas desenvolver mecanismos capazes de melhorar efetivamente o funcionamento das organizações.

O contexto em que surgiu o Cadbury Report ajuda a compreender a importância desse documento. No final da década de 1980 e início dos anos 1990, o Reino Unido enfrentava sucessivos escândalos corporativos, fraudes contábeis e falências inesperadas que abalaram a confiança dos investidores. Em resposta, o Financial Reporting Council, a Bolsa de Valores de Londres e representantes da profissão contábil instituíram, em maio de 1991, o Comitê sobre os Aspectos Financeiros da Governança Corporativa, presidido por Adrian Cadbury.

A missão era aparentemente simples, mas transformadora: restaurar a confiança nos mercados, por meio de melhores práticas de direção, fiscalização e prestação de contas. Publicado em dezembro de 1992, o Cadbury Report tornou-se um marco histórico. O documento recomendou, entre outras medidas, a clara separação entre as funções de presidente do conselho e diretor-presidente (CEO), o fortalecimento da independência dos conselhos de administração, a criação de comitês de auditoria compostos predominantemente por membros não executivos e o aprimoramento dos controles internos. 

Provavelmente, a inovação institucional mais duradoura do Cadbury Report foi o princípio do comply or explain (“cumpra ou explique”), segundo o qual as companhias poderiam deixar de observar determinada recomendação, desde que justificassem publicamente sua decisão. Em vez de um modelo excessivamente rígido, Cadbury propôs um sistema baseado na transparência, na responsabilidade e no julgamento dos investidores.

A contribuição de Adrian Cadbury ultrapassa o relatório que leva seu nome. Sua visão de governança nunca se limitou ao cumprimento formal de regras. Para ele, governança corporativa era o sistema pelo qual as organizações são dirigidas e controladas, equilibrando autoridade, responsabilidade, fiscalização e confiança. Em sua perspectiva, controles eficientes não existiam para dificultar a atuação dos gestores, mas para proteger a legitimidade de suas decisões, fortalecer a credibilidade das organizações e preservar a confiança dos mercados.

Sob essa ótica, destaca-se uma interessante complementaridade entre Adrian Cadbury, na Inglaterra, e Robert Monks, nos Estados Unidos. Enquanto Monks enfatizou o papel do acionista ativo na fiscalização das companhias, Cadbury concentrou seus esforços no aperfeiçoamento das estruturas internas de governança. Um olhava principalmente para a pressão exercida de fora para dentro; o outro, para a qualidade dos mecanismos existentes dentro das próprias organizações. Eram perspectivas distintas, mas igualmente válidas e, sobretudo, complementares. Adrian Cadbury e Robert Monks compartilhavam, todavia, uma convicção comum: empresas não prosperam de forma sustentável quando poder e fiscalização caminham separados.

A influência internacional do Cadbury Report foi extraordinária. Diversos códigos de governança editados posteriormente, na Europa e em outras partes do mundo, incorporaram, em maior ou menor medida, seus princípios fundamentais. Conceitos como independência dos conselhos, comitês especializados, prestação de contas, transparência e responsabilização tornaram-se pilares praticamente universais das boas práticas de governança. Mais do que um documento britânico, o relatório presidido por Cadbury tornou-se referência global para organizações públicas, privadas e do terceiro setor.

O legado de Adrian Cadbury permanece particularmente atual. Em um ambiente caracterizado por estruturas societárias complexas, investidores globais, riscos reputacionais crescentes, inteligência artificial e decisões algorítmicas, entre outros desafios, os requisitos da governança tornaram-se ainda mais sofisticados. As ferramentas evoluíram, mas a essência permanece inalterada: organizações sustentáveis dependem de estruturas capazes de equilibrar poder, responsabilidade, supervisão e confiança. Foi exatamente essa arquitetura institucional que Sir Adrian Cadbury ajudou a consolidar.

Uma ideia simples pode sintetizar o pensamento de Adrian Cadbury, e permanece profundamente atual: a boa governança não deve nascer quando surgem os problemas; ela precisa existir antes deles, para preveni-los sempre que possível e enfrentá-los quando inevitáveis. Enquanto muitos administradores acreditam que confiança decorre apenas da competência de seus líderes, para Cadbury ela dependia, sobretudo, da qualidade das instituições, das regras e dos mecanismos que limitam o poder, promovem a transparência e tornam a prestação de contas parte natural da vida das organizações. 

Mais de três décadas após a publicação do Cadbury Report, Adrian Cadbury continua ocupando lugar permanente entre os maiores arquitetos da governança corporativa mundial.


Sugestões de leitura: