quinta-feira, 30 de julho de 2026

Conflito de agência: Arantxa Sánchez e a confiança não protegida


Conflito de agência: Arantxa Sánchez e a confiança não protegida

Uma reflexão para famílias e empresas familiares

Ela foi a número 1 do mundo, conquistou por quatro vezes títulos de Grand Slam e acumulou mais de 30 milhões de dólares ao longo da carreira, entre premiações, patrocínios e outras receitas. Segundo a imprensa espanhola, foi condenada por ocultação de bens e só não teria sido presa por ter se disposto a entregar ao banco a metade de sua renda de professora. 

A história de Arantxa Sánchez Vicario não é sobre tênis, esporte no qual ela foi uma estrela, mas sobre o que acontece quando quem gera a riqueza abdica de governá-la. Arantxa entregou a administração do patrimônio que amealhara ao marido, Josep Santacana. Quando as dívidas vieram a conhecimento público – cerca de 7,5 milhões de euros com o Banco de Luxemburgo, segundo a imprensa espanhola – a Justiça entendeu que houve manobra para ocultar bens.

O conflito de agência na administração familiar

Infelizmente, a defesa apresentada pela vencedora tenista ao magistrado ecoa em muitas situações, no Brasil e no mundo: “Eu não sabia de nada, meu marido cuidava de tudo”. Esta é uma frase frequente em escritórios de advocacia e audiências do Poder Judiciário. Ao lado de outras como “eu não sabia, meu tio cuidava”, “eu só assinei, meu irmão é do financeiro” e “eu confiei no meu genro”. 

Mudam os personagens, mas o roteiro é o mesmo: a confiança depositada não correspondeu ao que dela se esperava. As consequências podem ser devastadoras para quem confiou. E este parece ter sido o caso da vencedora tenista Arantxa Sánchez.

Na teoria, trata-se do clássico conflito de agência, explicado por Michael Jensen e William Meckling no clássico artigo Theory of the Firm: Managerial Behavior, Agency Costs and Ownership Structure (1976). Em síntese:

1) Toda vez que o dono do capital (principal) delega poder a um gestor (agente) para agir em seu nome, nasce uma assimetria. 

2) O agente tem mais informações do que o principal e, se não houver monitoramento e incentivos alinhados, nem sempre agirá em benefício do segundo. 

3) E acrescentemos: pode haver incompetência, negligência ou má fé.

Tomando o caso Arantxa Sánchez como ilustração didática de um modelo genérico em que um cônjuge concentra todo o poder de administração patrimonial, os três custos de agência previstos pelos autores emergem com clareza:

1) custos de monitoramento, despendidos pelo principal para limitar comportamentos divergentes – aqui, nulos;

2) custos de garantia (bonding costs), que deveriam ser suportados pelo agente para demonstrar que não agiria contra o principal (indiretamente, assumidos pelo principal) – aqui, novamente, nulos; e

3) perda residual (residual loss), a mais dolorosa no caso em tela, correspondente à redução de valor suportada pelo principal em razão da divergência entre as decisões efetivamente tomadas pelo agente e aquelas que melhor atenderiam aos interesses daquele – aqui ilustrada pela dissipação patrimonial. 

À perda residual, acrescentamos um quarto custo, de nossa leitura: o custo da sinergia frustrada. Representa o valor adicional que uma relação principal-agente profícua e bem governada poderia ter produzido, mas deixou de alcançar. Retornamos à sinergia abaixo.

A esses custos econômicos, somam-se outros ainda mais dolorosos e de natureza não financeira: os desgastes emocionais decorrentes da disputa e da desagregação familiar, que podem ser percebidos pelos envolvidos como mais relevantes os próprios prejuízos financeiros, quando se pensa no sofrimento dos envolvidos.

A conquista de sinergia na administração familiar

Manter controles e incentivos adequados não significa desconfiar da instituição da família. Implica precisamente o oposto: proteger a família, aportando inteligência a serviço do patrimônio e da tranquilidade de seus membros. Acordos pré-nupciais, acordos societários, prestações de contas e outros instrumentos e cuidados pertinentes criam transparência, paz. E podem criar sinergia, em determinadas situações.

Arantxa Sánchez e seu marido aparentemente tinham tudo para criar sinergia: ela, como talento gerador de valor em quadras de tênis e atividades correlatas, e ele, como administrador do valor gerado fora das quadras. A equação simbólica 1 + 1 = 3, no entanto, falhou e tornou-se 1 + 1 = -1. O que ocorreu?

A percepção é que faltou na equação um elemento: o método validador da confiança, que aqui resumimos em uma expressão com dois verbos: monitore & garanta. Arantxa tinha confiança pessoal no marido, relacionada ao casamento. O que parece não ter existido foi o monitoramento e a garantia, correspondentes aos  dois primeiros componentes dos custos de agência, que validam, periodicamente, se a confiança está sendo honrada e, portanto, protegida. São eles que protegem a confiança, como ensina a teoria de agência.

Assim, a equação da sinergia familiar do caso em questão deveria ser escrita como 1 + 1 + monitore & garanta = 3. Sem os comandos do termo por extenso, a equação desabou. No patrimônio, confiança sem validação se torna abdicação, que costuma ter preço.

Enfatizamos aos leitores: considerem essas equações que aqui relacionamos à sinergia pelo seu simbolismo, não pela lógica matemática. Nesse sentido, sugerimos a leitura do artigo A aritmética da sinergia, publicado neste EG, entendendo que a expressão monitore & garanta é a camada aqui agregada às considerações ali desenvolvidas.

Breves reflexões sobre a empresa familiar

Estas breves linhas se ocupam, precipuamente, de ilustrar a situação de uma pessoa famosa que vivenciou o conflito de agência com grande exposição midiática e sérias consequências para a sua vida e a de sua família. Mas podemos aproveitar a oportunidade para tratar, muito brevemente, das empresas familiares e do conflito de agência que nelas pode ocorrer.

Na perspectiva da quantidade, o Brasil é um país preponderantemente de empresas familiares e a maior parte delas não chega à terceira geração. Muitas dessas organizações não desaparecem apenas por falta de mercado, mas também por problemas sucessórios, conflitos familiares, fragilidades administrativas e ausência de profissionalização, entre vários outros. 

Importante: nas empresas familiares, a expressão monitore & garanta, expressa na equação da sinergia acima apresentada, se torna algo com mais densidade de conteúdo: governe a organização. Governar tem a ver com governança corporativa.

Levando o ocorrido com a tenista Arantxa Sánchez ao contexto das empresas familiares, o conflito de agência continua sob o risco de ser turbinado pelo afeto. Afinal, é mais difícil pedir prestação de contas ao pai, à mãe, ao irmão, ao marido ou aos filhos e filhas. A confiança, sem o suporte de uma governança robusta, torna-se arriscada.

A desgovernança pode ser instituída com o carimbo de sentimento de amor. E aqui, muitas famílias erram. Confunde-se amar com não controlar, respeitar com não perguntar, confiar com abdicar. O bom governante familiar faz o oposto: por amar e respeitar, ele institui a governança societária e a governança corporativa, com ética, integridade, prestação de contas, responsabilidade e sustentabilidade. Não para acusar, mas para proteger; não para desconfiar, mas para validar.

A lição do caso Arantxa Sánchez, despido de seu glamour midiático e dos milhões ganhos e depois perdidos, é universal e atemporal. Não basta ter dois talentos – quem gera o valor e quem o administra. Sem boa governança, o potencial de destruição de valor é considerável; com boa governança, todavia, a família pode transformar afeto em bons resultados – e com criação de sinergia.

A governança da empresa familiar, em sua essência, deve assegurar que o patrimônio continue sendo o que sempre deve ser: um instrumento a serviço da família, não o oposto. É a coordenação organizacional, no seu mais alto nível, que protege o afeto e perpetua o patrimônio. Sem isso, o que era para ser legado e harmonia, pode se tornar litígio e desagregação.

Mônica Mansur Brandão


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Neste EG





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