domingo, 14 de julho de 2019

Documentário brasileiro sobre barragem rompida de Mariana é premiado na ONU


O documentário River of Mud – the worst environmental disaster in Brazil (Rio de Lama – o pior desastre ambiental do Brasil), dirigido por Tadeu Jungle, foi premiado no Festival de Filmes ODS em Ação, promovido no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). A obra venceu a categoria destinada a produções em realidade virtual e 360 graus. O reconhecimento foi entregue em Nova York, no dia 11 de julho de 2019.

O curta-metragem retrata as consequências do rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, ocorrido em Mariana, Minas Gerais, em 5 de novembro de 2015. Utilizando recursos de realidade virtual, o filme conduz o espectador pelos escombros de Bento Rodrigues e combina as imagens da comunidade destruída com relatos e lembranças de antigos moradores.

Mais de mil produções foram inscritas no Festival. O reconhecimento internacional concedido a Rio de Lama amplia a visibilidade de uma tragédia que não pode ser compreendida apenas por números, processos judiciais ou estimativas financeiras. Por trás da destruição material, existem histórias, vínculos comunitários, modos de vida e memórias que não podem ser reconstruídos da mesma forma.

A barragem de Fundão pertencia à Samarco, sociedade controlada conjuntamente pela Vale e pela BHP Billiton. Seu rompimento liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, destruiu Bento Rodrigues, atingiu outras comunidades e comprometeu extensas áreas da bacia do Rio Doce, até alcançar o Oceano Atlântico, no litoral do Espírito Santo. Dezenove pessoas morreram.

O desastre produziu consequências ambientais, sociais e econômicas de grande extensão. Famílias perderam suas casas, comunidades foram desestruturadas, atividades produtivas foram prejudicadas e populações dependentes do Rio Doce passaram a conviver com incertezas relacionadas à água, à pesca, à agricultura e à recuperação ambiental.

Em janeiro deste ano, o Brasil voltou a enfrentar o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração, dessa vez em Brumadinho. A repetição de uma tragédia de enormes proporções tornou ainda mais urgente o debate sobre segurança, fiscalização, prevenção e responsabilidade no setor mineral.

Memória, empatia e responsabilidade

Uma das contribuições mais importantes de Rio de Lama está na maneira como aproxima o espectador da experiência vivida pelos moradores. A realidade virtual não permite apenas observar os escombros a distância: procura criar a sensação de presença no local atingido e estabelecer uma relação mais direta com as perdas humanas retratadas.

Essa aproximação tem especial importância, porque os desastres podem, com o passar do tempo, transformar-se apenas em datas, estatísticas e referências processuais. A preservação da memória ajuda a impedir que o sofrimento das pessoas seja diluído pela sucessão de novas notícias e pelo prolongamento das discussões administrativas e judiciais.

Os moradores de Bento Rodrigues não perderam somente imóveis e objetos. Perderam espaços nos quais construíram relações, criaram filhos, desenvolveram atividades e formaram uma identidade comunitária. Uma indenização pode compensar determinados danos materiais, mas não consegue reproduzir integralmente o ambiente social e afetivo destruído.

O documentário contribui para registrar essa dimensão. Ao colocar as lembranças dos moradores diante das imagens da devastação, a obra demonstra que um desastre ambiental também é uma ruptura humana. O território não representa apenas uma área física: contém histórias, referências culturais e relações de pertencimento.

A arte e o audiovisual podem, portanto, cumprir uma função que relatórios técnicos e documentos jurídicos nem sempre conseguem desempenhar sozinhos. Eles traduzem acontecimentos complexos em experiências capazes de sensibilizar diferentes públicos e manter viva a discussão sobre suas causas e consequências.

O documentário sob a perspectiva da governança

O rompimento de uma barragem não deve ser analisado apenas como um acidente isolado. Ele também suscita questões sobre a maneira como riscos foram identificados, informações foram compartilhadas, responsabilidades foram distribuídas e decisões foram supervisionadas.

A governança de uma organização precisa estabelecer mecanismos capazes de impedir que objetivos de produção, redução de custos ou crescimento econômico se sobreponham indevidamente à segurança das pessoas e à proteção do meio ambiente. Quando uma atividade possui potencial para causar danos de grande extensão, a prevenção deve ocupar posição central nas decisões.

Conselhos de administração e diretorias precisam receber informações confiáveis, questionar avaliações excessivamente otimistas e acompanhar riscos capazes de ameaçar comunidades, empregados, meio ambiente e a própria continuidade da organização. A existência de controles formais, isoladamente, não basta quando alertas deixam de alcançar as instâncias decisórias ou não recebem o tratamento adequado.

Órgãos públicos também exercem papel indispensável. Licenciamento, fiscalização, planos de emergência e responsabilização precisam funcionar de maneira coordenada e efetiva. A dependência econômica de determinadas regiões em relação à mineração não pode reduzir a independência das instituições encarregadas de proteger a sociedade.

O reconhecimento concedido a Rio de Lama pela ONU demonstra que a tragédia de Mariana ultrapassou as fronteiras brasileiras. O filme transforma a experiência de uma comunidade específica em advertência sobre os riscos existentes em atividades econômicas capazes de produzir consequências irreversíveis.

Premiar o documentário não repara os danos nem substitui a responsabilização dos envolvidos. O reconhecimento, entretanto, contribui para preservar a memória, ampliar o debate e recordar que as vítimas não podem desaparecer atrás das estruturas empresariais, das controvérsias jurídicas ou da passagem do tempo.

O trabalho de Tadeu Jungle ajuda a formular uma pergunta que permanece aberta: quantas tragédias ainda serão necessárias para que prevenção, segurança e responsabilidade sejam tratadas como prioridades permanentes? Mariana e Brumadinho demonstram que aprender depois do desastre é necessário, mas aprender antes que ele aconteça é uma obrigação muito maior.


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