quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Indicação: livro "Tragédia em Mariana"


O livro Tragédia em Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil, da jornalista Cristina Serra, foi publicado pela Editora Record em 2018. A obra reúne relatos, documentos e informações sobre o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido no município mineiro de Mariana em 5 de novembro de 2015.

A barragem de Fundão era operada pela Samarco, empresa controlada conjuntamente pela Vale e pela BHP. O rompimento provocou a morte de 19 pessoas, destruiu Bento Rodrigues, atingiu outras comunidades e comprometeu extensas áreas da bacia do Rio Doce, produzindo consequências ambientais, sociais e econômicas de grande extensão.

Cristina Serra procura mostrar quem eram as pessoas que perderam a vida e como o desastre atingiu moradores, trabalhadores e comunidades. Para escrever o livro, entrevistou sobreviventes, familiares, especialistas e pessoas que ajudaram a reduzir as consequências imediatas do rompimento.

Segundo a autora, a decisão de produzir a obra surgiu após a cobertura jornalística realizada por ela sobre o primeiro Natal das famílias atingidas. Essa origem ajuda a explicar uma das características mais importantes do livro: os dados e as questões institucionais são apresentados sem apagar as histórias humanas existentes por trás deles.

A autora também examina fragilidades relacionadas à fiscalização das barragens de mineração, ao licenciamento ambiental, à prevenção de riscos e à atuação das instituições. A leitura do conjunto permite compreender que desastres dessa dimensão dificilmente decorrem de uma causa isolada. Em geral, resultam da combinação de falhas técnicas, organizacionais, regulatórias e decisórias.

Cristina Serra trabalhou durante muitos anos na Rede Globo e atuou como repórter do Fantástico, produzindo reportagens especiais. Nas duas entrevistas apresentadas abaixo, ela comenta a elaboração do livro, as condições de segurança das barragens e as dificuldades relacionadas à responsabilização pelo desastre.

Memória, prevenção e governança

O livro possui importância que ultrapassa o registro histórico. Ao reconstruir decisões, omissões, advertências e consequências, a obra permite refletir sobre como organizações e instituições lidam com atividades capazes de produzir danos de grande extensão.

Sob a perspectiva da governança, administrar riscos não significa apenas elaborar relatórios ou cumprir formalidades. É necessário garantir que informações relevantes cheguem aos responsáveis pelas decisões, que sinais de alerta sejam examinados e que objetivos econômicos não se sobreponham indevidamente à segurança das pessoas e à proteção do meio ambiente.

Conselhos de administração e diretorias precisam compreender os riscos relacionados às atividades que supervisionam. Também devem questionar avaliações excessivamente otimistas, exigir controles efetivos e acompanhar a preparação da organização para situações de emergência.

A governança pública possui responsabilidade igualmente importante. Licenciamento, fiscalização, planos de emergência e atuação dos órgãos competentes precisam funcionar de maneira independente e coordenada. A existência formal de normas não oferece proteção suficiente quando sua aplicação é precária ou quando as instituições não dispõem de recursos e condições para cumprir suas atribuições.

Na entrevista concedida à Jovem Pan em 2019, Cristina Serra afirmou que, naquele momento, o processo reunia 21 réus e mais de 400 testemunhas, circunstâncias que demonstravam sua elevada complexidade. Esses números devem ser compreendidos como um retrato da situação processual apresentado pela jornalista na época da entrevista.

A busca por maior rapidez não permite abandonar o devido processo legal, o contraditório ou a ampla defesa. Eficiência e garantias jurídicas não são valores incompatíveis. O desafio consiste em assegurar uma apuração tecnicamente consistente e concluída em tempo capaz de produzir responsabilização efetiva daqueles cuja responsabilidade venha a ser devidamente reconhecida.

Pouco mais de três anos depois de Mariana, o rompimento de outra barragem de rejeitos, em Brumadinho, voltou a demonstrar a gravidade dos riscos existentes no setor mineral. Não é possível afirmar, com segurança, que uma resposta jurídica mais rápida ao desastre de Mariana teria impedido o segundo. A proximidade entre os acontecimentos, entretanto, permite perguntar se as lições de Mariana foram transformadas, com a urgência necessária, em fiscalização, prevenção e mudanças organizacionais.

Essa talvez seja uma das reflexões mais importantes provocadas pelo livro. Investigar e responsabilizar depois de um desastre é indispensável; construir condições para impedir que ele aconteça é ainda mais importante.

Tragédia em Mariana constitui, assim, uma leitura relevante para pessoas interessadas em sustentabilidade, mineração, governança corporativa, gestão de riscos, fiscalização pública e responsabilidade organizacional. Ao preservar a memória das vítimas e examinar as estruturas relacionadas ao desastre, a obra ajuda a impedir que Mariana seja lembrada apenas como uma fatalidade inevitável.


Sugestão:

Veja, abaixo, duas entrevistas com Cristina sobre o livro Tragédia em Mariana.