sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cavalo de Tróia: a due diligence que nunca ocorreu


A história do Cavalo de Troia atravessou mais de três mil anos como uma das maiores demonstrações de inteligência estratégica da humanidade. Narrada por Virgílio, no Livro II da Eneida, e enraizada na tradição épica grega já presente em Homero, ela costuma ser lembrada como o triunfo da astúcia sobre a força.

Mas esta é uma das interpretações possíveis da lendária história. Sob a ótica da governança societária e da governança corporativa, o episódio pode ser reinterpretado de maneira completamente diferente: a queda de Troia representa, possivelmente, o mais famoso caso de ausência de due diligence da civilização ocidental.

A tradição clássica

Segundo a tradição clássica, após aproximadamente dez anos de guerra, os gregos aparentemente desistiram do cerco a Troia. Contudo, antes de embarcarem de volta para a ilha de Tenedos, eles deixaram para trás um espião chamado Sinon, que contaria uma história elaborada aos troianos. Antes de partir, deixaram diante das muralhas de Troia um gigantesco cavalo de madeira. O presente parecia simbolizar uma homenagem aos deuses e o reconhecimento da derrota grega.

Sinon, o agente infiltrado, convenceu os troianos de que o cavalo era uma oferenda à deusa Atena, construído propositalmente grande para que os troianos não pudessem levá-lo para dentro da cidade e, assim, roubar a glória daquele presente divino. 

Convencidos de que o conflito finalmente terminara, e tomados por aquilo que hoje chamaríamos de FOMO  (Fear of Missing Out) corporativo, os troianos decidiram levar aquele monumento para o interior da cidade. Durante a madrugada, entretanto, soldados escondidos em seu interior saíram silenciosamente, abriram os portões e permitiram a entrada do exército grego que aguardava nas proximidades. Troia não foi vencida por suas muralhas, mas por sua decisão.

Embora escavações arqueológicas confirmem a existência histórica da antiga Troia, localizada na atual Turquia, não há comprovação de que o célebre cavalo de madeira tenha realmente existido. Diferentes hipóteses procuram explicar a origem da narrativa. Entre elas está a possibilidade de que o termo associado ao “cavalo” designasse originalmente uma embarcação ou algum tipo de estrutura militar, posteriormente transformada pela tradição oral no monumental cavalo de madeira que chegou até nós.

Independentemente do que de fato ocorreu, o que torna a metáfora da due diligence mais adequada a esse clássico da literatura é que os troianos não verificaram adequadamente aquilo que estavam recebendo. Paradoxalmente, a incerteza histórica reforça a atualidade da narrativa. Afinal, importa menos se o Cavalo de Troia existiu exatamente como descrito pelos poetas do que o comportamento humano retratado na história, que continua real e atual.

Durante séculos, o episódio foi interpretado como uma lição de estratégia militar extraordinária, frequentemente associada à astúcia de Ulisses. As próprias tradições antigas, contudo, apresentam versões diferentes sobre a origem do estratagema. Em Quinto de Esmirna, por exemplo, Palas Atena aparece em sonho a Epeu, o célebre construtor do cavalo, e lhe determina que realize a extraordinária obra. Mais importante do que determinar a autoria da ideia, porém, é observar que Troia permanece responsável pela decisão de permitir sua entrada.

Uma das leituras possíveis para a clássica história do Cavalo de Troia é que o verdadeiro fracasso de Troia não consistiu na suposta genialidade de Ulisses, mas na incapacidade dos próprios troianos de investigar aquilo que estavam prestes a incorporar ao seu patrimônio. Em linguagem contemporânea, faltou-lhes realizar uma due diligence.

A associação entre o Cavalo de Troia, os processos decisórios e as falhas de governança não é inteiramente nova. Outras reflexões já utilizaram a célebre narrativa para discutir controles, riscos e a necessidade de vozes críticas nas organizações. O que se propõe aqui é desenvolver essa leitura sob a perspectiva específica da due diligence, da independência dos agentes de governança e da criação de um possível Protocolo Cavalo de Troia aplicável às decisões organizacionais.

A falta de uma due diligence

A expressão é moderna, mas o conceito é antigo. Due diligence significa diligência prévia: um conjunto de procedimentos destinados a verificar informações, identificar riscos ocultos, confirmar a veracidade dos fatos e reduzir a probabilidade de decisões equivocadas. Empresas utilizam essa expressão em fusões, aquisições, investimentos relevantes, contratações estratégicas e operações societárias. Seu objetivo é simples: impedir que a aparência substitua a realidade.

Se transportarmos esse conceito para Troia, algumas perguntas surgem naturalmente. Quem construiu aquele cavalo? Por que o inimigo deixaria espontaneamente um presente? O objeto deveria ser desmontado? Haveria compartimentos ocultos? Quais riscos poderiam estar invisíveis? 

Em um bom estudo para a decisão de sócios ou em um bom conselho de administração contemporâneo, essas perguntas seriam inevitáveis. Na história do Cavalo de Troia, porém, elas jamais chegaram a orientar a decisão, segundo conta a história clássica que até nós chegou.

Nesse ponto, emerge um personagem frequentemente esquecido, mas que talvez seja o verdadeiro protagonista da governança de Troia nessa narrativa: Laocoonte. Sacerdote troiano, ele advertiu seus concidadãos com uma frase que atravessou os séculos: Timeo Danaos et dona ferentes (Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes).

Mais do que alertar, Laocoonte arremessou sua lança contra o cavalo, tentando verificar aquilo que todos os demais preferiam apenas contemplar. Em outras palavras, tentou realizar, provavelmente, a única tentativa genuinamente investigativa de due diligence daquela história.

Segundo Virgílio, Laocoonte e seus filhos foram mortos por serpentes enviadas pelos deuses. Os troianos interpretaram aquele acontecimento como um sinal de que o sacerdote havia ofendido a divindade ao atacar o cavalo. Ironia trágica: precisamente o homem que tentava impedir a destruição da cidade, foi visto como seu inimigo. A advertência transformou-se em motivo para acelerar a decisão equivocada.

Nas organizações modernas, os "Laocoontes" continuam existindo. São os conselheiros com real espírito de independência (não necessariamente os formalmente considerados independentes), os auditores independentes, os profissionais de auditoria interna, de compliance, de riscos e de normas jurídicas entre outros questionadores. São aqueles que fazem perguntas sem predisposição a aprovar a operação. Sua função não é impedir decisões, mas impedir decisões precipitadas. Quando essas vozes deixam de ser ouvidas, a governança começa a enfraquecer muito antes de qualquer crise se tornar visível.

A dimensão por trás das decisões

Existe uma dimensão subjacente importante no clássico Cavalo de Troia. Os troianos desejavam profundamente acreditar que a guerra havia terminado. Esse desejo reduziu sua capacidade crítica. Sócios e líderes organizacionais também podem cair nessa armadilha; por exemplo, quando o entusiasmo coletivo substitui a análise racional, quando resultados recentes produzem excesso de confiança ou quando oportunidades aparentemente irresistíveis passam a ser aceitas sem o questionamento necessário. Em governança, poucas ameaças são tão perigosas quanto a convicção mal embasada de que "tudo dará certo", "isso tem tudo para dar certo!".

Curiosamente, as muralhas de Troia não foram rompidas pela força. Tornaram-se irrelevantes, pois os próprios habitantes abriram os portões. Assim, due diligence como metáfora permanece poderosa. Empresas e outras organizacionais da economia nem sempre desaparecem apenas por causa da concorrência ou das crises econômicas. Muitas perdas de maior vulto decorrem de decisões internas tomadas sem investigação suficiente, sem avaliação independente ou sem diligência compatível com os riscos envolvidos.

Esta pode ser a razão pela qual o Cavalo de Troia permanece tão presente em nosso imaginário. Não importa se existiu exatamente como descrito pelos poetas. A lendária história expressa uma lição importante para organizações: grandes oportunidades também podem agregar grandes ou insuportáveis riscos. Não se propõe aqui evitar a tomada de riscos, pois eles são inerentes aos negócios, mas procurar identificá-los, bem como buscar o tratamento mais adequado ao caso que se considera. Isto porque crises podem, sim, perfeitamente, entrar pela porta da frente.

O Protocolo Cavalo de Troia

Após essas reflexões, resta aqui sugerir algo que poderíamos chamar de Protocolo Cavalo de Troia (consideramos mais direta esta expressão do que Protocolo Anti-Cavalo de Troia, como seria tecnicamente melhor). Antes de incorporar um novo investimento, uma aquisição, uma tecnologia, um parceiro estratégico ou mesmo um executivo de grande influência, algumas perguntas podem se tornar obrigatórias: 

O que realmente sabemos? 

O que ainda desconhecemos? 

Quem realizou uma verificação independente? 

Que riscos permanecem ocultos? 

Quem desempenha o papel de Laocoonte na cúpula da organização?

Estamos decidindo com base em evidências ou apenas acreditando naquilo que gostaríamos que fosse verdade?

No plano organizacional, o Cavalo de Troia não é uma história interessante apenas em função da estratégia de guerra adotada pelos gregos, mas da advertência de Laocoonte. 

Muito antes de o mundo empresarial criar a expressão due diligence, Troia já demonstrava o custo de sua ausência. A cidade não caiu porque lhe faltavam muralhas, mas porque deixou de fazer e responder perguntas críticas antes de abrir seus portões. E, três mil anos depois, esta continua sendo uma das mais importantes lições para qualquer organização que pretenda sobreviver: procure bem conhecer a operação ante de tomar sua decisão. 


Mônica Mansur Brandão