Era do obscurantismo na geopolítica?
A visão geopolítica de Paulo Nogueira Batista Jr.,
economista, ex-Diretor Executivo no FMI e
ex-Vice-Presidente do Banco do BRICs
Em artigo publicado na revista CartaCapital, denominado A era do obscurantismo (20/8/2026), Paulo Nogueira Batista Jr. economista que exerceu cargos relevantes no FMI e no Banco do BRICs, propõe uma interpretação sobre a geopolítica internacional. O texto parte da constatação de que a humanidade atravessa a situação mais delicada desde a Segunda Guerra Mundial.
Principais eixos geopolíticos
O segundo eixo diz respeito ao declínio relativo do Ocidente e à forma de reagir a esse declínio. O artigo sustenta que esse processo teria sido acelerado por escolhas estratégicas dos Estados Unidos, como o envolvimento em três frentes simultâneas contra Rússia, China e Irã e, a partir de 2025, por uma hostilidade surpreendente em relação a aliados tradicionais, resultando em fragmentação inédita do bloco ocidental. Ao mesmo tempo, o texto pondera que, apesar do declínio, o Ocidente, em especial os Estados Unidos, não deve ser subestimado. A ressalva introduz equilíbrio em uma tese que, de outra forma, poderia sugerir um enfraquecimento linear.
O terceiro eixo introduz a dimensão racial. Para o autor, o mundo pode ser compreendido, para certos propósitos, a partir da divisão entre Ocidente e Sul Global, sendo que aproximadamente três quartos da população que reside no Ocidente seriam brancos, com minorias não brancas ocupando principalmente postos de baixa qualificação. Deste ponto em diante, o texto sugere a existência de um racismo disseminado e arraigado, de natureza estrutural, ancorado na convicção de que a civilização ocidental seria produto de povos superiores.
O quarto eixo trata da migração em larga escala para os Estados Unidos e a Europa, oriunda da América Latina, da África e da Ásia Ocidental. O texto observa que a popularidade da luta contra a imigração reflete, em parte, um desejo compreensível de proteger a cultura ocidental, mas argumenta que a esse desejo legítimo se misturam, cada vez mais, o racismo mencionado e a crença na superioridade da raça branca. Um exemplo seria o tratamento dispensado aos migrantes brancos da Ucrânia, que enfrentariam menos obstáculos na Europa do que árabes ou africanos negros, pois um imigrante ou refugiado ucraniano seria visto como “um de nós”. A partir dessa observação, o autor sugere a existência de uma nova forma de fascismo xenofóbico e o crescimento de uma nova direita que teria, no cerne de seu discurso, a rejeição radical aos imigrantes.
Sobre o Brasil
Paulo Nogueira Batista Jr. desdobra o reposicionamento relacionado ao Brasil em duas frentes. A primeira é de natureza defensiva. Para o autor, o Brasil deveria abandonar o posicionamento acomodado e a crença de que divergências internacionais se resolvem apenas com boa vontade, diplomacia e soft power. Isso exigiria uma preparação em três planos, abaixo sintetizados.
No plano psicológico, seria preciso superar os complexos de inferioridade e os resquícios de séculos de colonização cultural, além de ressignificar o tradicional pacifismo, não para agredir, mas para reconhecer que, como diziam os romanos, si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra).
No plano econômico, cumpriria buscar autossuficiência em áreas essenciais e evitar dependência elevada de fornecedores estrangeiros, especialmente daqueles situados em países que aparecem como agressores potenciais, trazendo cadeias de produção estratégicas para o território nacional ou para países confiáveis, ainda que isso implique perdas de eficiência.
No plano militar, por fim, existiria a necessidade de preparação para enfrentar tempestades pela frente, já que esta seria uma questão urgente e inadiável para o País.
A segunda frente é de natureza propositiva. O autor sustenta que o Brasil, por suas dimensões, por resultar da mistura de povos oriundos de todas as partes do Planeta e por sua tradição de abertura ao mundo, teria condições de oferecer uma palavra nova, uma mensagem de congraçamento e união global. O destino histórico do País, ao lado de outras nações em ascensão, seria talvez o de iniciar uma espécie de Segunda Renascença, capaz de responder às ameaças e catástrofes da era do obscurantismo. Paulo Nogueira Batista Jr. reconhece a audácia da hipótese e remete o leitor ao seu livro mais recente, Estilhaços, encerrando com a indagação: não é pelo delírio que se chega à essência das coisas?
Breve reflexão sobre o artigo
Este bloco não pretende oferecer respostas ou alternativas ao autor. Busca apenas problematizar alguns pressupostos e convidar o leitor a pensar consigo mesmo.
Estaria o Ocidente em declínio? A tese do declínio ocidental é uma das interpretações possíveis. Analistas como Joseph Nye e Fareed Zakaria, entre outros, preferem falar em “descentralização” ou “ascensão do resto”, não propriamente em queda. O que estaria ocorrendo seria a perda da hegemonia absoluta, não necessariamente da capacidade de influência. A visão de Paulo Nogueira é intrigante, legítima e merece reflexão.
No que concerne às duas teses defendidas pelo autor para o Brasil, cumpre assinalar: a frente defensiva sugerida exige realismo de poder (autossuficiência, preparo militar, desconfiança); por outro lado, a frente propositiva requer idealismo conciliador. O artigo não trata da harmonização entre as duas lógicas. Como conciliar as duas frentes? O próprio autor aponta tal desafio. Um Brasil que se arma para se proteger não seria necessariamente incompatível com o papel de arauto da união; a questão seria saber se esse fortalecimento seria percebido como capacidade defensiva legítima ou como pretensão de projeção coercitiva. Já um Brasil desarmado poderia ser tragado, conforme os fatos, por circunstâncias adversas.
Ao mesmo tempo, para fins desta reflexão, talvez o mais relevante seja indagar: como o artigo em tela se conecta ao momento brasileiro, independentemente do cenário geopolítico?
O texto foi publicado em agosto de 2026, na revista Carta Capital, no contexto das eleições gerais no Brasil, que ocorrerão em breve. Embora o artigo não trate diretamente do calendário eleitoral, as duas teses que ele apresenta para o País são de interesse do debate público e poderiam ser resumidas em duas perguntas: 1) qual papel o País deve exercer no exterior?; e 2) que grau de autonomia e preparação o País precisa buscar?
Seja no eixo defensivo da autossuficiência e da segurança, seja no eixo propositivo de um protagonismo de congraçamento, as escolhas apontadas pelo autor, ainda que não exaustivas, são, em última instância, escolhas de estratégia nacional.
Tomado em conjunto, o artigo de Paulo Nogueira Batista Jr. tem o mérito de propor uma leitura de longo prazo e de forçar o pensamento estratégico brasileiro a sair do curto prazo e da retórica institucional. Ao articular dimensões que a diplomacia tradicional elide, tais como poder, raça, migração e preparo nacional, ele oferece um diagnóstico corajoso.
Por fim, os conceitos centrais (obscurantismo, regressão, fascismo) do artigo de Paulo Nogueira parecem características de um autor que não se esconde atrás de neutralidades fingidas. No conjunto, essas ideias convidam o leitor a refletir se estamos diante de uma mudança de era e sobre como o Brasil deve se orientar diante dela, com os olhos voltados simultaneamente para o presente e para o futuro.
Sugestão de leitura: