A inteligência artificial generativa está ampliando rapidamente seu espaço na vida cotidiana, mas a transformação mais relevante não está apenas no número de pessoas que utilizam essas ferramentas. Em artigo publicado pela Harvard Business Review, Marc Zao-Sanders analisa como a IA vem sendo efetivamente utilizada em 2026 e aponta uma mudança mais profunda: sistemas concebidos inicialmente como instrumentos de produtividade começam também a participar de atividades tradicionalmente associadas ao pensamento, à decisão e até às relações emocionais humanas.
O levantamento faz parte da terceira edição do estudo longitudinal AI in the Wild. Para chegar aos resultados, foram analisados 12.637 casos de utilização de inteligência artificial, identificados a partir de uma base com quase 50 mil registros, coletados entre março de 2025 e fevereiro de 2026, em plataformas como Reddit, Quora, LinkedIn, TikTok e YouTube. A conclusão geral é que a diversidade de usos continua aumentando e que as mudanças observadas de um ano para outro representam mais deslocamentos progressivos na maneira como as pessoas incorporam a tecnologia às próprias rotinas do que rupturas propriamente ditas.
Um dos conceitos mais provocadores apresentados pelo artigo é o de thinkslop, expressão utilizada para caracterizar uma espécie de pensamento superficial ou preguiçoso que pode surgir quando parte excessiva do processo intelectual é transferida para a inteligência artificial. Entre os principais usos identificados aparecem atividades como aconselhamento sobre relacionamentos, tomada de decisões, organização da vida, elaboração de e-mails e geração de ideias. O problema, segundo a análise, não está simplesmente em recorrer à tecnologia, mas no risco de utilizá-la antes mesmo de definir com clareza aquilo que se pretende pensar, construir ou decidir.
A preocupação alcança também a escrita. Quando textos produzidos pela IA são utilizados praticamente sem revisão ou elaboração humana, o usuário pode não apenas gerar conteúdos aparentemente sofisticados, mas intelectualmente vazios, bem como deixar de utilizar a própria escrita como instrumento de raciocínio. O artigo recorda que escrever não consiste apenas em registrar pensamentos previamente formados: o próprio processo de redigir, revisar e reorganizar argumentos é uma das formas pelas quais o pensamento se desenvolve.
Outro fenômeno chama a atenção. Terapia e companhia aparecem como o principal caso de uso da inteligência artificial em 2026. Foram identificados mais de 1.400 registros desse tipo, correspondentes a aproximadamente 11% da base analisada, contra 5% no levantamento anterior. Pessoas recorrem aos sistemas para aconselhamento amoroso, conflitos pessoais, apoio emocional, aumento de confiança e interpretação de mensagens recebidas de outras pessoas. Em alguns casos, os usuários atribuem nomes, gêneros e características humanas aos próprios assistentes, demonstrando como a relação com a tecnologia começa a ultrapassar os limites tradicionais existentes entre usuário e ferramenta.
No ambiente profissional, o estudo identifica uma mudança diferente. Dos 100 principais casos de uso encontrados, 63 possuem relação direta ou possível aplicação no trabalho. Entretanto, grande parte dessa adoção não decorre necessariamente de grandes programas corporativos de inteligência artificial. Frequentemente, são os próprios profissionais que introduzem essas ferramentas em suas rotinas para elaborar documentos, resumir reuniões, analisar informações, desenvolver códigos ou acelerar determinadas tarefas. Surge, assim, a chamada shadow AI: utilização da inteligência artificial que ocorre paralelamente – e algumas vezes à margem – das estruturas formais de tecnologia, segurança e governança das organizações.
Apesar da expectativa em torno de uma transformação radical das empresas, os resultados ainda sugerem predominância de ganhos incrementais. A inteligência artificial vem sendo utilizada principalmente para tornar processos existentes mais rápidos, baratos ou eficientes. Há exemplos de aumento de desempenho em vendas e marketing e algumas experiências de transformação mais profunda dos modelos de negócio, mas muitas permanecem em estágio inicial, com benefícios ainda difíceis de mensurar. A revolução prometida pela IA, portanto, já pode ser percebida em inúmeras pequenas mudanças, embora sua reorganização estrutural das organizações ainda esteja em desenvolvimento.
A questão levantada pela Harvard Business Review ultrapassa produtividade, tecnologia ou eficiência empresarial. Sistemas capazes de escrever, aconselhar, analisar, planejar e conversar estão permanentemente disponíveis para milhões de pessoas. Quanto maior sua capacidade, mais importante se torna definir aquilo que se pretende delegar e aquilo que é preciso preservar como responsabilidade humana. Possivelmente, o grande desafio da inteligência artificial não reside em descobrir o que ela será capaz de fazer por seres humanos, mas em decidir o que esses seguirão fazendo por si mesmos. A resposta ainda parece longe de ser dada.
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