domingo, 16 de agosto de 2026

Presidente da AMEC elenca questões relevantes para os mercados de capitais e de crédito


Em entrevista concedida à Revista RI – Relações com Investidores, Fábio Coelho, presidente executivo da Associação de Investidores no Mercado de Capitais – AMEC, percorreu alguns dos principais desafios atualmente enfrentados pelos mercados de capitais e de crédito no Brasil. Entre questões regulatórias, mudanças na estrutura societária das companhias, crescimento do crédito privado e transformação tecnológica dos mercados, quatro pontos de sua análise merecem atenção especial.

O primeiro diz respeito à necessidade de atualização de determinadas estruturas da legislação societária brasileira. A Lei nº 6.404/1976 completa 50 anos mantendo enorme importância para o desenvolvimento do mercado nacional, mas foi concebida em uma realidade empresarial diferente da atual. Coelho chama atenção especialmente para companhias sem controlador definido e para situações em que determinados investidores possuem participações extremamente relevantes sem serem juridicamente caracterizados como controladores. Surge, nesse contexto, o chamado acionista de referência, capaz de exercer influência econômica expressiva sem que a legislação estabeleça com a mesma clareza as responsabilidades correspondentes a essa posição.

O segundo ponto está relacionado ao extraordinário crescimento do mercado de crédito privado. Coelho utiliza uma metáfora, ao afirmar que “a roupa do mercado de crédito acabou ficando pequena” para um mercado que cresceu e se sofisticou rapidamente. O diagnóstico apresentado pelo Presidente da AMEC identifica três frentes principais de aperfeiçoamento: regras mais estruturadas para as assembleias de credores; tratamento dos conflitos de interesse existentes nesse mercado; e melhoria da quantidade, organização e acessibilidade das informações disponíveis aos investidores. O crédito privado ganhou dimensão e complexidade, mas parte de sua arquitetura institucional ainda precisa acompanhar essa transformação.

Um terceiro aspecto especialmente relevante reside no enforcement. Em vez de responder a cada crise, fraude ou falha empresarial simplesmente com novas regras, multas e obrigações, Coelho propõe uma reflexão sobre a própria capacidade de supervisão do mercado. Sua crítica recai sobre um sistema que ainda trabalha fortemente de maneira posterior aos acontecimentos: identifica-se uma irregularidade, instaura-se um processo administrativo e, muitas vezes, a decisão somente chega anos depois. Em mercados cada vez mais rápidos e tecnológicos, ele defende maior aproximação com modelos de supervisão baseada em risco, capazes de identificar preventivamente onde os problemas estão se materializando e concentrar nesses pontos os recursos humanos e tecnológicos do regulador.

O quarto ponto projeta a discussão diretamente para o futuro. Plataformas de investimento, tokenização, ativos digitais e criptoeconomia estão modificando a velocidade, a escala e a própria infraestrutura dos mercados. Para Coelho, estruturas que sustentaram o mercado de capitais durante décadas talvez não sejam suficientes para essa nova realidade. Será necessário repensar regulação, supervisão e políticas públicas em um ambiente caracterizado por operações cada vez mais tecnológicas e exponenciais. É nesse contexto que aparece uma das afirmações mais interessantes da entrevista: “Governança é uma disciplina de futuro.”

As quatro questões possuem um elemento comum. Em todas, a velocidade das transformações econômicas parece superar a capacidade de adaptação de algumas das estruturas institucionais construídas para acompanhá-las. O desafio não consiste simplesmente em produzir mais regras, mas em compreender novas formas de poder econômico, desenvolver mecanismos adequados de responsabilização, ampliar a transparência e tornar a supervisão capaz de antecipar riscos. A governança, nessa perspectiva, deixa de ser apenas uma resposta aos problemas já ocorridos e passa a desempenhar função essencial na preparação dos mercados para mudanças que já estão em curso.

É nesse debate que se insere a AMEC, que completou 20 anos de atuação. Criada originalmente para dar voz aos investidores não controladores em um mercado caracterizado por forte concentração de capital, a entidade ampliou progressivamente seu campo de atuação. Segundo Fábio Coelho, acumulou ao longo desse período um repertório construído a partir da análise de casos, do diálogo com reguladores, companhias e investidores e da participação em discussões sobre mudanças institucionais. Nascida essencialmente no mercado de ações, a AMEC passou também a dedicar crescente atenção ao mercado de crédito e hoje procura se posicionar como um think tank voltado à discussão da governança e do desenvolvimento dos mercados brasileiros.


Entrevista também em vídeo e Revista RI (2026):