Quando os riscos invisíveis chegam ao balanço
Poucas empresas brasileiras reúnem tantos elementos para um estudo de governança corporativa e sustentabilidade quanto a Braskem. Em 2026, a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas permanece operacionalmente relevante, mas enfrenta, ao mesmo tempo, elevado endividamento, passivos socioambientais, pressão de credores, processos judiciais e uma profunda reorganização financeira e societária.
A Braskem foi criada em agosto de 2002, a partir da integração de seis empresas dos grupos Odebrecht e Mariani: Copene, OPP, Trikem, Proppet, Nitrocarbono e Polialden. Nas décadas seguintes, aquisições e investimentos levaram a Companhia a ampliar sua escala e a operar unidades industriais no Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha e no México, tornando-se um ativo estratégico da indústria petroquímica brasileira.
Em Alagoas, entretanto, a origem das operações era anterior à própria Braskem. A exploração de sal-gema em Maceió começou na década de 1970, sob responsabilidade da Salgema, posteriormente denominada Trikem e incorporada à Braskem em 2002. Por meio da injeção de água em profundidade, o sal era dissolvido e extraído, deixando cavidades subterrâneas que exigiam controle geológico permanente.
Antes que o problema de Maceió se tornasse público, a Braskem já havia atravessado uma grave crise de integridade. Em 2016, a Companhia celebrou acordos com autoridades do Brasil, dos Estados Unidos e da Suíça relacionados a investigações de corrupção e assumiu compromissos voltados ao fortalecimento de seus controles internos, mecanismos de conformidade e práticas de governança.
O episódio evidenciou que conselhos, auditorias, estruturas formais e códigos de governança não garantem, isoladamente, boa governança corporativa. Sua efetividade depende da capacidade real de identificar riscos, questionar decisões, impedir condutas inadequadas e proteger a sustentabilidade da organização contra interesses de curto prazo.
Maceió: quando o risco deixou de ser abstrato
Em 3 de março de 2018, um tremor de terra foi registrado em Maceió. Nos meses seguintes, moradores perceberam rachaduras em imóveis, ruas e estruturas nos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol. Em 2019, estudos do Serviço Geológico do Brasil relacionaram a subsidência do terreno à atividade de mineração de sal-gema e à instabilidade das cavidades subterrâneas; no mesmo ano, a extração foi definitivamente interrompida.
A paralisação das minas não encerrou o problema. A movimentação do solo prosseguiu, milhares de moradores e comerciantes tiveram de deixar seus imóveis e partes de bairros inteiros foram desocupadas. O desastre passou a envolver, simultaneamente, responsabilidade ambiental e civil, patrimônio público, urbanismo, direitos humanos, relações comunitárias e governança corporativa.
Em dezembro de 2023, parte da cavidade da Mina 18 colapsou, após apresentar subsidência acelerada. A área já estava desocupada, sem registro de vítimas, mas o episódio confirmou que a instabilidade geológica permanecia ativa anos depois do encerramento da mineração e reforçou a necessidade de monitoramento contínuo.
Maceió deixou, assim, de representar um passivo delimitado no tempo. Seus efeitos ambientais, sociais, jurídicos, urbanos, financeiros e reputacionais continuam acompanhando a Braskem e demonstram como um risco operacional pode atravessar décadas e chegar às finanças corporativas, aos tribunais e à vida de uma cidade.
Reparação, acordos e responsabilização
Até 31 de julho de 2026, o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação havia apresentado 19.205 propostas, das quais 19.144 foram aceitas e 19.132 indenizações foram pagas. Segundo a Braskem, as compensações e os auxílios financeiros desembolsados desde a criação do programa, em 2019, somavam R$ 4,25 bilhões.
Além dos pagamentos individuais, a Braskem celebrou acordos institucionais. Em julho de 2023, comprometeu-se a pagar R$ 1,7 bilhão ao Município de Maceió; em novembro de 2025, firmou acordo de R$ 1,2 bilhão com o Estado de Alagoas, com parte do saldo distribuída em parcelas de longo prazo. Em 30 de junho de 2026, as provisões contabilizadas para gastos relacionados a Alagoas totalizavam aproximadamente R$ 3,25 bilhões.
Seria incorreto afirmar que nada foi feito: houve realocação, indenizações, fechamento e monitoramento de cavidades, obras e ações sociourbanísticas. Também seria incorreto considerar o caso encerrado, pois permanecem intervenções em andamento, demandas de moradores e comunidades, controvérsias sobre a extensão dos danos e diferentes processos judiciais.
Na esfera criminal, a Justiça Federal em Alagoas recebeu parcialmente, em junho de 2026, denúncia do Ministério Público Federal contra a Braskem, ex-dirigentes e técnicos ligados à atividade minerária. Parte das condutas foi considerada prescrita, e as acusações ainda serão submetidas ao contraditório e à ampla defesa. A Braskem contesta as imputações e afirma ter atuado conforme a legislação e as exigências regulatórias; portanto, o recebimento da denúncia não equivale a condenação.
Uma Companhia lucrativa e financeiramente pressionada
O caso Braskem apresenta uma aparente contradição entre desempenho operacional e fragilidade financeira. No segundo trimestre de 2026, a Companhia registrou EBITDA recorrente de US$ 1,043 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 5,25 bilhões, e lucro líquido de cerca de R$ 3,33 bilhões, favorecidos, entre outros fatores, pela melhora dos spreads químicos e petroquímicos internacionais.
Em 30 de junho de 2026, porém, a dívida bruta corporativa, excluídas Braskem Idesa e TQPM, alcançava US$ 10,314 bilhões, enquanto a dívida líquida ajustada somava US$ 9,427 bilhões. A relação entre dívida líquida ajustada e EBITDA recorrente dos últimos doze meses era de 6,74 vezes, e 92% da dívida corporativa estava denominada em moeda estrangeira.
Os números revelam uma lição importante: lucro contábil e EBITDA não significam, necessariamente, caixa suficiente para pagar obrigações em seus vencimentos. Uma empresa pode possuir ativos relevantes e operações produtivas, mas enfrentar crise de liquidez quando o endividamento, a moeda, o custo e o calendário da dívida se tornam incompatíveis com sua geração de caixa.
A pressão financeira também refletia o prolongado ciclo desfavorável da petroquímica mundial, margens comprimidas, obrigações relacionadas a Alagoas e dificuldades da Braskem Idesa, no México. Assim, a melhora expressiva de um trimestre não eliminava os problemas acumulados nem resolvia, por si só, a estrutura de capital da Companhia.
Novo acionista de referência, nova arquitetura financeira
Em 2026, o Shine I FIP, gerido pela IG4 Capital, passou a deter 50,11% das ações ordinárias da Braskem, enquanto a Petrobras permaneceu com 47,03%. Essa composição reuniu um acionista privado em posição central e uma sociedade de economia mista estratégica, ambos cercados por credores, investidores, empregados, fornecedores, clientes, autoridades e comunidades atingidas pelo desastre.
O desafio ultrapassa a negociação financeira: envolve decidir quanto capital será necessário, quais dívidas poderão ser convertidas em participação, quais garantias serão oferecidas e como preservar a operação sem distribuir perdas e riscos de forma injusta. A governança deve impedir que a urgência da crise favoreça um grupo de interessados em detrimento dos demais.
Depois de obter proteção cautelar contra determinadas cobranças em junho de 2026, o Conselho de Administração aprovou, em 24 de agosto, o ajuizamento da recuperação extrajudicial da Braskem e de certas controladas. O pedido abrange aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras quirografárias; seu processamento foi deferido pela Justiça de São Paulo em 28 de agosto, abrindo caminho para a negociação do plano com os credores.
A recuperação extrajudicial tem escopo estritamente financeiro e, segundo a Companhia, não alcança obrigações ordinárias com fornecedores, clientes e outras partes interessadas, que continuam vigentes. Ainda assim, a reestruturação poderá produzir capitalização, conversão de créditos em participação societária, novas garantias e outras alterações relevantes na arquitetura financeira e no equilíbrio de poder da Braskem.
O que Maceió ensina sobre governança
O desastre ambiental de Maceió reforça que risco operacional não é sinônimo de risco financeiro, mas que ambos estão profundamente interconectados. Um conselho pode acompanhar EBITDA, dívida, margem e retorno sobre capital e, ainda assim, falhar ao reconhecer um risco operacional, ambiental ou social capaz de gerar, anos depois, deslocamento de comunidades, destruição urbana, processos judiciais e obrigações bilionárias.
O caso Braskem também expõe um dos maiores desafios da governança: decisões podem produzir consequências muito depois da saída daqueles que as tomaram. Mandatos terminam, executivos e conselheiros são substituídos, mas os riscos permanecem com a organização, com seus acionistas e, nos casos mais graves, com comunidades que jamais participaram da decisão empresarial.
O futuro da Braskem dependerá de uma combinação difícil: reorganizar a dívida sem destruir sua capacidade operacional, preservar valor sem transferir riscos indevidos, cumprir os compromissos assumidos em Alagoas, responder aos processos judiciais e reconstruir a confiança de credores, investidores, autoridades e sociedade. Esta não é apenas uma equação financeira, mas uma complexa equação de governança corporativa.
Empresas podem renegociar dívidas, substituir controladores e recuperar demonstrações financeiras; reconstruir a confiança é muito mais difícil. A história da Braskem ainda está sendo escrita, mas já revela uma conclusão incontornável: possivelmente, a prova mais difícil da boa governança seja corrigir o passado, pagando a conta de riscos ignorados e decisões equivocadas, tomadas sob uma governança que já não existe, mas cujas consequências permanecem.
Espaço Governança
Sugestões de consulta:
História e formação empresarial
BRASKEM S.A. Histórico da Companhia. São Paulo: Braskem, [s.d.].
BRASKEM S.A. Braskem assina acordo global e conclui negociação com autoridades. São Paulo: Braskem, 2016.
Desastre socioambiental de Maceió
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Estudos sobre a instabilidade do terreno nos bairros Pinheiro, Mutange e Bebedouro, Maceió-AL: volume I, relatório síntese. Brasília: CPRM, 2019.
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Apresentação dos resultados dos estudos sobre a instabilidade do terreno em Maceió. Brasília: SGB, 2019.
AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO. Caso Braskem: perguntas e respostas sobre fiscalização, mineração, subsidência e Mina 18. Brasília: ANM, 19 dez. 2023.
BRASKEM S.A. Informações sobre Alagoas. São Paulo: Braskem, [s.d.].
Reparação e responsabilização
JUSTIÇA FEDERAL EM ALAGOAS. Caso Braskem: Justiça Federal recebe denúncia contra empresa, ex-gestores e técnicos. Maceió: JFAL, 14 jun. 2026.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Atuação do MPF no caso Braskem recebe novo reconhecimento nacional - XIV Prêmio República. Maceió: MPF, 18 jun. 2026.
Resultados financeiros e estrutura societária
BRASKEM S.A. Central de resultados: release do segundo trimestre de 2026. São Paulo: Braskem RI, 14 ago. 2026.
UOL ECONOMIA. Braskem reverte prejuízo e lucra US$ 664 milhões no segundo trimestre. São Paulo, 14 ago. 2026.
REUTERS. Brazil's Braskem elects Petrobras CEO as new chair. Londres, 29 abr. 2026.
REUTERS. Brazil's Petrobras decides not to exercise waiver rights over Novonor's stake sale in Braskem. Londres, 23 abr. 2026.
Reestruturação financeira
BRASKEM S.A. Recuperação extrajudicial: documentos e informações aos investidores. São Paulo: Braskem RI, 2026.
FOLHA DE S.PAULO; REUTERS. Braskem diz que Justiça aprovou processamento da recuperação extrajudicial. São Paulo, 28 ago. 2026.
INVESTNEWS. Braskem pede proteção judicial contra credores em meio à crise financeira. São Paulo, 25 jun. 2026.