sábado, 19 de setembro de 2026

Caso Braskem: Expansão petroquímica, desastre de Maceió e desafios de governança


Quando os riscos invisíveis chegam ao balanço

Poucas empresas brasileiras reúnem tantos elementos para um estudo de governança corporativa e sustentabilidade quanto a Braskem. Em 2026, a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas permanece operacionalmente relevante, mas enfrenta, ao mesmo tempo, elevado endividamento, passivos socioambientais, pressão de credores, processos judiciais e uma profunda reorganização financeira e societária.

Da expansão empresarial à crise de governança

A Braskem foi criada em agosto de 2002, a partir da integração de seis empresas dos grupos Odebrecht e Mariani: Copene, OPP, Trikem, Proppet, Nitrocarbono e Polialden. Nas décadas seguintes, aquisições e investimentos levaram a Companhia a ampliar sua escala e a operar unidades industriais no Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha e no México, tornando-se um ativo estratégico da indústria petroquímica brasileira.

Em Alagoas, entretanto, a origem das operações era anterior à própria Braskem. A exploração de sal-gema em Maceió começou na década de 1970, sob responsabilidade da Salgema, posteriormente denominada Trikem e incorporada à Braskem em 2002. Por meio da injeção de água em profundidade, o sal era dissolvido e extraído, deixando cavidades subterrâneas que exigiam controle geológico permanente.

Antes que o problema de Maceió se tornasse público, a Braskem já havia atravessado uma grave crise de integridade. Em 2016, a Companhia celebrou acordos com autoridades do Brasil, dos Estados Unidos e da Suíça relacionados a investigações de corrupção e assumiu compromissos voltados ao fortalecimento de seus controles internos, mecanismos de conformidade e práticas de governança.

O episódio evidenciou que conselhos, auditorias, estruturas formais e códigos de governança não garantem, isoladamente, boa governança corporativa. Sua efetividade depende da capacidade real de identificar riscos, questionar decisões, impedir condutas inadequadas e proteger a sustentabilidade da organização contra interesses de curto prazo.

Maceió: quando o risco deixou de ser abstrato

Em 3 de março de 2018, um tremor de terra foi registrado em Maceió. Nos meses seguintes, moradores perceberam rachaduras em imóveis, ruas e estruturas nos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol. Em 2019, estudos do Serviço Geológico do Brasil relacionaram a subsidência do terreno à atividade de mineração de sal-gema e à instabilidade das cavidades subterrâneas; no mesmo ano, a extração foi definitivamente interrompida.

A paralisação das minas não encerrou o problema. A movimentação do solo prosseguiu, milhares de moradores e comerciantes tiveram de deixar seus imóveis e partes de bairros inteiros foram desocupadas. O desastre passou a envolver, simultaneamente, responsabilidade ambiental e civil, patrimônio público, urbanismo, direitos humanos, relações comunitárias e governança corporativa.

Em dezembro de 2023, parte da cavidade da Mina 18 colapsou, após apresentar subsidência acelerada. A área já estava desocupada, sem registro de vítimas, mas o episódio confirmou que a instabilidade geológica permanecia ativa anos depois do encerramento da mineração e reforçou a necessidade de monitoramento contínuo.

Maceió deixou, assim, de representar um passivo delimitado no tempo. Seus efeitos ambientais, sociais, jurídicos, urbanos, financeiros e reputacionais continuam acompanhando a Braskem e demonstram como um risco operacional pode atravessar décadas e chegar às finanças corporativas, aos tribunais e à vida de uma cidade.

Reparação, acordos e responsabilização

Até 31 de julho de 2026, o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação havia apresentado 19.205 propostas, das quais 19.144 foram aceitas e 19.132 indenizações foram pagas. Segundo a Braskem, as compensações e os auxílios financeiros desembolsados desde a criação do programa, em 2019, somavam R$ 4,25 bilhões.

Além dos pagamentos individuais, a Braskem celebrou acordos institucionais. Em julho de 2023, comprometeu-se a pagar R$ 1,7 bilhão ao Município de Maceió; em novembro de 2025, firmou acordo de R$ 1,2 bilhão com o Estado de Alagoas, com parte do saldo distribuída em parcelas de longo prazo. Em 30 de junho de 2026, as provisões contabilizadas para gastos relacionados a Alagoas totalizavam aproximadamente R$ 3,25 bilhões.

Seria incorreto afirmar que nada foi feito: houve realocação, indenizações, fechamento e monitoramento de cavidades, obras e ações sociourbanísticas. Também seria incorreto considerar o caso encerrado, pois permanecem intervenções em andamento, demandas de moradores e comunidades, controvérsias sobre a extensão dos danos e diferentes processos judiciais.

Na esfera criminal, a Justiça Federal em Alagoas recebeu parcialmente, em junho de 2026, denúncia do Ministério Público Federal contra a Braskem, ex-dirigentes e técnicos ligados à atividade minerária. Parte das condutas foi considerada prescrita, e as acusações ainda serão submetidas ao contraditório e à ampla defesa. A Braskem contesta as imputações e afirma ter atuado conforme a legislação e as exigências regulatórias; portanto, o recebimento da denúncia não equivale a condenação.

Uma Companhia lucrativa e financeiramente pressionada

O caso Braskem apresenta uma aparente contradição entre desempenho operacional e fragilidade financeira. No segundo trimestre de 2026, a Companhia registrou EBITDA recorrente de US$ 1,043 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 5,25 bilhões, e lucro líquido de cerca de R$ 3,33 bilhões, favorecidos, entre outros fatores, pela melhora dos spreads químicos e petroquímicos internacionais.

Em 30 de junho de 2026, porém, a dívida bruta corporativa, excluídas Braskem Idesa e TQPM, alcançava US$ 10,314 bilhões, enquanto a dívida líquida ajustada somava US$ 9,427 bilhões. A relação entre dívida líquida ajustada e EBITDA recorrente dos últimos doze meses era de 6,74 vezes, e 92% da dívida corporativa estava denominada em moeda estrangeira.

Os números revelam uma lição importante: lucro contábil e EBITDA não significam, necessariamente, caixa suficiente para pagar obrigações em seus vencimentos. Uma empresa pode possuir ativos relevantes e operações produtivas, mas enfrentar crise de liquidez quando o endividamento, a moeda, o custo e o calendário da dívida se tornam incompatíveis com sua geração de caixa.

A pressão financeira também refletia o prolongado ciclo desfavorável da petroquímica mundial, margens comprimidas, obrigações relacionadas a Alagoas e dificuldades da Braskem Idesa, no México. Assim, a melhora expressiva de um trimestre não eliminava os problemas acumulados nem resolvia, por si só, a estrutura de capital da Companhia.

Novo acionista de referência, nova arquitetura financeira

Em 2026, o Shine I FIP, gerido pela IG4 Capital, passou a deter 50,11% das ações ordinárias da Braskem, enquanto a Petrobras permaneceu com 47,03%. Essa composição reuniu um acionista privado em posição central e uma sociedade de economia mista estratégica, ambos cercados por credores, investidores, empregados, fornecedores, clientes, autoridades e comunidades atingidas pelo desastre.

O desafio ultrapassa a negociação financeira: envolve decidir quanto capital será necessário, quais dívidas poderão ser convertidas em participação, quais garantias serão oferecidas e como preservar a operação sem distribuir perdas e riscos de forma injusta. A governança deve impedir que a urgência da crise favoreça um grupo de interessados em detrimento dos demais.

Depois de obter proteção cautelar contra determinadas cobranças em junho de 2026, o Conselho de Administração aprovou, em 24 de agosto, o ajuizamento da recuperação extrajudicial da Braskem e de certas controladas. O pedido abrange aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras quirografárias; seu processamento foi deferido pela Justiça de São Paulo em 28 de agosto, abrindo caminho para a negociação do plano com os credores.

A recuperação extrajudicial tem escopo estritamente financeiro e, segundo a Companhia, não alcança obrigações ordinárias com fornecedores, clientes e outras partes interessadas, que continuam vigentes. Ainda assim, a reestruturação poderá produzir capitalização, conversão de créditos em participação societária, novas garantias e outras alterações relevantes na arquitetura financeira e no equilíbrio de poder da Braskem.

O que Maceió ensina sobre governança

O desastre ambiental de Maceió reforça que risco operacional não é sinônimo de risco financeiro, mas que ambos estão profundamente interconectados. Um conselho pode acompanhar EBITDA, dívida, margem e retorno sobre capital e, ainda assim, falhar ao reconhecer um risco operacional, ambiental ou social capaz de gerar, anos depois, deslocamento de comunidades, destruição urbana, processos judiciais e obrigações bilionárias.

O caso Braskem também expõe um dos maiores desafios da governança: decisões podem produzir consequências muito depois da saída daqueles que as tomaram. Mandatos terminam, executivos e conselheiros são substituídos, mas os riscos permanecem com a organização, com seus acionistas e, nos casos mais graves, com comunidades que jamais participaram da decisão empresarial.

O futuro da Braskem dependerá de uma combinação difícil: reorganizar a dívida sem destruir sua capacidade operacional, preservar valor sem transferir riscos indevidos, cumprir os compromissos assumidos em Alagoas, responder aos processos judiciais e reconstruir a confiança de credores, investidores, autoridades e sociedade. Esta não é apenas uma equação financeira, mas uma complexa equação de governança corporativa.

Empresas podem renegociar dívidas, substituir controladores e recuperar demonstrações financeiras; reconstruir a confiança é muito mais difícil. A história da Braskem ainda está sendo escrita, mas já revela uma conclusão incontornável: possivelmente, a prova mais difícil da boa governança seja corrigir o passado, pagando a conta de riscos ignorados e decisões equivocadas, tomadas sob uma governança que já não existe, mas cujas consequências permanecem.


Espaço Governança


Sugestões de consulta:


História e formação empresarial

BRASKEM S.A. Histórico da Companhia. São Paulo: Braskem, [s.d.].



Desastre socioambiental de Maceió



AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO. Caso Braskem: perguntas e respostas sobre fiscalização, mineração, subsidência e Mina 18. Brasília: ANM, 19 dez. 2023.

BRASKEM S.A. Informações sobre Alagoas. São Paulo: Braskem, [s.d.].


Reparação e responsabilização

JUSTIÇA FEDERAL EM ALAGOAS. Caso Braskem: Justiça Federal recebe denúncia contra empresa, ex-gestores e técnicos. Maceió: JFAL, 14 jun. 2026.



Resultados financeiros e estrutura societária

BRASKEM S.A. Central de resultados: release do segundo trimestre de 2026. São Paulo: Braskem RI, 14 ago. 2026.





Reestruturação financeira


FOLHA DE S.PAULO; REUTERS. Braskem diz que Justiça aprovou processamento da recuperação extrajudicial. São Paulo, 28 ago. 2026.