sábado, 5 de setembro de 2026

Ronald Coase e a pergunta sobre a razão de existir das firmas


Antes de governar uma organização, é preciso compreender por que ela existe.

Ronald Harry Coase foi uma das personalidades mais importantes do pensamento econômico do século XX e um dos autores cuja obra ajudou a construir as bases intelectuais para compreender as organizações, os contratos, os direitos de propriedade e os mecanismos pelos quais as atividades econômicas são coordenadas. 

Nascido na Inglaterra em 1910, o professor Coase estudou na London School of Economics e desenvolveu sua carreira acadêmica no Reino Unido e, posteriormente, nos Estados Unidos. Foi professor da Universidade de Chicago e editor do Journal of Law and Economics. Em 1991, recebeu o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel por sua contribuição à compreensão da importância dos custos de transação e dos direitos de propriedade para a estrutura institucional e o funcionamento da economia.

Embora não tenha desenvolvido uma teoria de governança corporativa nos moldes que posteriormente seriam associados a autores como Adolf Berle e Gardiner Means, Michael Jensen e William Meckling, ou a formuladores de práticas de governança, como Sir Adrian Cadbury, as ideias de Ronald Coase contribuíram profundamente para compreender a razão pela qual determinadas atividades são realizadas dentro das empresas e não diretamente pelo mercado.

O pensamento de Coase se baseia em uma pergunta aparentemente simples, mas poderosa: se o mercado consegue coordenar atividades econômicas por meio dos preços, por que as empresas existem? Foi essa indagação, essencialmente, que o ilustre pensador colocou no centro do seu artigo seminal denominado The Nature of the Firm, publicado em 1937. O texto se tornou um dos trabalhos mais influentes da economia institucional moderna e abriu caminho para uma nova compreensão sobre a natureza das organizações.

Uma grande inovação de Coase foi apontar que o mercado não opera sem custos. Negociar, obter informações, encontrar fornecedores, elaborar contratos, fiscalizar seu cumprimento e adaptar relações diante de mudanças econômicas são atividades que consomem tempo e recursos. Se todas as transações fossem realizadas via mercado, esses custos seriam elevados. Em determinadas circunstâncias, torna-se mais eficiente substituir negociações de mercado por uma estrutura organizada sob a autoridade de um administrador, quando a coordenação interna se mostra menos custosa do que recorrer repetidamente ao mercado. É dessa comparação entre diferentes formas de coordenação que emerge a firma.

Para Coase, a firma pode ser compreendida como uma forma alternativa de coordenação econômica. Fora dela, o mecanismo de preços orienta as transações; dentro, determinadas decisões passam a ser coordenadas por uma estrutura de autoridade. A firma tende, portanto, a incorporar atividades enquanto o custo adicional de organizá-las internamente for inferior ao custo de realizá-las por meio do mercado. Essa lógica estabelece o limite de sua expansão: na margem, a firma deixa de crescer quando o custo de coordenar internamente uma nova atividade se iguala ou supera o custo de deixá-la para o mercado.

Essa percepção produz uma consequência extraordinária para a governança corporativa. Governar uma organização significa, em alguma medida, administrar os limites entre autoridade, mercado, contratos e coordenação interna. Quanto maior e mais complexa a organização, maior tende a ser a necessidade de mecanismos capazes de organizar responsabilidades, decisões e relações entre diferentes participantes. 

Se Berle e Means demonstraram os problemas da separação entre propriedade e controle, Coase ajudou a compreender por que a organização empresarial se tornou uma instituição necessária. Se Jensen e Meckling trataram a firma como um nexus de relações contratuais e analisaram os custos associados aos conflitos de agência, Coase forneceu uma base para compreender por que relações econômicas são internalizadas nas firmas e submetidas à autoridade de administradores. E se Adrian Cadbury procurou aperfeiçoar os mecanismos destinados a controlar e supervisionar essa autoridade, Coase ajudou a compreender a razão econômica pela qual ela existe.

A contribuição de Ronald Coase também ultrapassou a teoria da empresa. Em The Problem of Social Cost, publicado em 1960, ele se voltou para os conflitos envolvendo direitos, externalidades e custos de negociação. Seu trabalho demonstrou a importância dos direitos de propriedade e das instituições jurídicas para o funcionamento da economia, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da chamada Law and Economics. O próprio Coase ressaltaria que, em um mundo de custos de transação positivos, o sistema jurídico exerce influência profunda sobre o funcionamento do sistema econômico.

Essa aproximação entre Economia, Direito e instituições tem especial relevância para a governança corporativa. Empresas não funcionam apenas por meio de números, contratos ou organogramas. Elas dependem de regras que definem direitos, responsabilidades, autoridade e mecanismos de resolução de conflitos. Quando essas regras são mal desenhadas, os custos de coordenação aumentam; quando são adequadamente estruturadas, podem reduzir incertezas e permitir que diferentes agentes cooperem de maneira mais eficiente.

Coase também ofereceu uma importante advertência contra modelos excessivamente abstratos. Sua preocupação sempre esteve voltada para compreender como as firmas funcionam no mundo real. O mercado, os contratos, a administração, a informação e coordenação têm seus respectivos custos. Nenhuma estrutura é gratuita. A boa organização, portanto, não consiste simplesmente em criar mais regras, mais controles ou mais níveis hierárquicos, mas em encontrar uma combinação institucional capaz de produzir melhores resultados.

Sob essa perspectiva, Ronald Coase estabeleceu uma relação muito interessante com Adrian Cadbury, que concentrou sua atenção na necessidade de estruturas capazes de sustentar a confiança e controlar o exercício do poder. Coase, décadas antes, havia mostrado que a própria existência das organizações decorre de escolhas institucionais destinadas a reduzir determinados custos de coordenação. Um ajuda a compreender por que a organização existe; o outro, como ela pode ser melhor governada.

A influência de Coase permanece presente em praticamente todas as discussões contemporâneas sobre organizações. Fusões e aquisições, terceirização, integração vertical, plataformas digitais, relações contratuais, propriedade intelectual, mercados e estruturas empresariais complexas podem ser analisados a partir da pergunta fundamental que seu pensamento ajudou a formular: é melhor coordenar determinada atividade pelo mercado ou dentro de uma organização?

Em tempos de inteligência artificial, plataformas digitais e organizações cada vez mais distribuídas, essa pergunta ganhou uma nova dimensão. Tecnologias podem reduzir determinados custos de informação, comunicação e coordenação, alterando continuamente as fronteiras entre aquilo que as empresas fazem internamente e aquilo que contratam externamente. A tecnologia muda; a pergunta de Coase permanece.

Provavelmente, o maior legado de Coase para a governança é a constatação de que, antes de perguntar como uma organização deve ser governada, cabe compreender por que determinada atividade foi organizada dentro de uma estrutura empresarial, em vez de permanecer submetida diretamente às relações de mercado. Estruturas empresariais não são inevitáveis, contratos não são gratuitos e mercados não são perfeitos. Toda forma de organização representa uma escolha entre diferentes mecanismos de coordenação econômica.

Quase nove décadas depois de The Nature of the Firm, a pergunta de Ronald Coase continua extraordinariamente atual. Por que existe a firma? A resposta ajuda a compreender não apenas a economia das organizações empresariais, mas também alguns dos fundamentos intelectuais sobre os quais a governança corporativa contemporânea foi construída. Afinal, antes de controlar o poder, fiscalizar os administradores, proteger os acionistas ou equilibrar interesses, é preciso compreender como e por que o poder foi organizado dentro daquela estrutura.


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