Ilustração em IA de 2026, relacionada ao presente texto.
No dia 25 de janeiro de 2019, o rompimento da Barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, operada pela Vale no município mineiro de Brumadinho, produziu uma avalanche de rejeitos que atingiu instalações da empresa, trabalhadores, moradores, edificações, propriedades rurais e cursos de água.
No balanço disponível na véspera desta publicação, 186 mortes haviam sido confirmadas e 122 pessoas permaneciam desaparecidas. As duas categorias somavam 308 pessoas. As buscas prosseguem, enquanto familiares aguardam respostas e comunidades procuram compreender como enfrentar as consequências humanas, ambientais, sociais e econômicas do desastre.
O Rio Paraopeba, importante para o abastecimento e para diferentes atividades desenvolvidas na região, foi severamente atingido. As consequências do rompimento não se limitam, portanto, à área próxima da barragem: alcançam populações, municípios e atividades que dependem da qualidade da água e do equilíbrio ambiental da bacia.
Uma tragédia dessa dimensão precisa ser examinada por especialistas em engenharia, mineração, meio ambiente, Direito, saúde, economia, administração e outras áreas do conhecimento. Também exige uma reflexão profunda sob a perspectiva da governança corporativa.
As perguntas da governança
A governança corporativa trata da maneira pela qual as organizações são dirigidas, supervisionadas e submetidas à prestação de contas. Em atividades capazes de produzir impactos humanos e ambientais de grande extensão, isso inclui compreender como os riscos chegam à alta administração, como são avaliados e quais decisões são tomadas diante deles.
Uma primeira pergunta precisa ser formulada: os responsáveis pelas decisões possuíam informações suficientes, claras e tempestivas sobre as condições da barragem? Relatórios técnicos, avaliações de estabilidade e sinais de alerta chegaram às instâncias superiores da empresa? Caso tenham chegado, receberam o tratamento compatível com a gravidade dos riscos envolvidos?
Também é necessário compreender como estavam distribuídas as responsabilidades. Conselhos de administração, diretorias, áreas técnicas, auditorias, empresas contratadas e órgãos de fiscalização exercem funções distintas. Uma estrutura formalmente organizada, entretanto, não assegura que as informações circulem, que os controles funcionem ou que decisões preventivas sejam efetivamente tomadas.
A gestão de riscos não pode limitar-se à elaboração de documentos destinados ao cumprimento de exigências formais. Ela precisa influenciar investimentos, operações, manutenção, planos de emergência e decisões sobre continuidade ou interrupção das atividades. Um risco classificado como pouco provável pode exigir atenção máxima quando suas consequências potenciais forem inaceitáveis.
Os sistemas de incentivo também merecem ser examinados. Metas de produção, redução de custos e resultados financeiros são instrumentos legítimos de gestão, mas não podem estimular comportamentos que diminuam a atenção concedida à segurança. Quando os resultados econômicos de curto prazo ocupam posição superior à proteção da vida e do meio ambiente, surge um grave desalinhamento organizacional.
Além da estrutura formal
A cultura da organização exerce influência decisiva sobre o tratamento dos riscos. Empregados e especialistas precisam sentir-se seguros para comunicar problemas, contestar conclusões e levar preocupações às instâncias superiores. Quando informações inconvenientes são minimizadas ou encontram dificuldades para percorrer a hierarquia, a organização pode perder sua capacidade de perceber a realidade.
Outro ponto central é a preparação para emergências. Planos de contingência, sistemas de alerta, rotas de fuga, treinamento das comunidades e coordenação com autoridades públicas precisam funcionar antes que um desastre aconteça. Depois do rompimento, nenhuma estrutura emergencial consegue recuperar integralmente as vidas e os vínculos destruídos.
O caso também evidencia a importância da perspectiva dos stakeholders. As decisões de uma mineradora não afetam apenas acionistas, administradores e empregados. Comunidades, fornecedores, governos, consumidores, credores e populações que dependem dos recursos naturais podem suportar consequências decorrentes das atividades empresariais.
Pouco mais de três anos antes de Brumadinho, o Brasil havia enfrentado o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. A proximidade entre os dois acontecimentos torna inevitável perguntar se os aprendizados daquele desastre foram incorporados com suficiente profundidade às práticas empresariais, à fiscalização e às políticas relacionadas à segurança das barragens.
Essa pergunta não representa uma conclusão antecipada sobre responsabilidades, que deverão ser apuradas pelas autoridades competentes com base em provas e garantias jurídicas. Ela constitui, entretanto, uma questão legítima de governança: de que maneira organizações e instituições transformam experiências anteriores em prevenção efetiva?
A governança pública também precisa ser considerada. Licenciamento, fiscalização e definição de responsabilidades dependem de instituições capazes de atuar com independência, competência técnica e recursos adequados. Empresas e órgãos públicos possuem atribuições próprias, mas a proteção da sociedade exige que essas estruturas funcionem de maneira coordenada.
Brumadinho demonstra que a governança corporativa não constitui apenas um conjunto de recomendações destinado a melhorar reputações ou relações com investidores. Em determinadas atividades, sua qualidade pode estar diretamente relacionada à proteção de vidas, do meio ambiente e da própria continuidade da organização.
Uma reflexão de Adriana Andrade Solé
No dia 12 de fevereiro de 2019, Adriana Andrade Solé, professora e consultora mineira especializada em governança corporativa, apresentou uma reflexão relevante sobre o ocorrido em Brumadinho. Nos vídeos abaixo, ela examina o desastre a partir de questões relacionadas à governança, à gestão de riscos e às responsabilidades existentes nas organizações.
As atividades da professora Adriana podem ser acompanhadas no site Governança Já. Ela é coautora, com o professor José Paschoal Rossetti, do livro Governança Corporativa: fundamentos, desenvolvimento e tendências, publicado pela Editora Atlas e já em sua sétima edição.
Sugestão:
Vídeos com Adriana Solé.
