Em entrevista à Revista RI, edição 305, divulgada no dia 6 de outubro, Valéria Café, diretora-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC, apresenta uma visão de governança que vai muito além de estruturas formais, conselhos ou mecanismos de controle. A entrevista foi concedida no âmbito da coluna Orquestra Societária, assinada por Cida Hess, Mônica Brandão e José Carlos Paranhos.
Ao recordar que o propósito do Instituto é promover “uma governança corporativa melhor, para uma sociedade melhor”, ela relaciona governança à capacidade das organizações de atuar com propósito, ética e responsabilidade. Nessa perspectiva, integridade, sustentabilidade, equidade, responsabilização e transparência não devem permanecer apenas nos documentos corporativos: precisam estar presentes nas decisões e na vida cotidiana das organizações.
Valéria Café trata das profundas transformações tecnológicas, econômicas e geopolíticas em curso. Em ambientes cada vez mais incertos, ela defende uma governança adaptativa, capaz de acompanhar mudanças rápidas e trabalhar com diferentes cenários. Nesse sentido, a inteligência artificial surge como parte importante do processo, mas não elimina a responsabilidade humana. Ao contrário: tecnologias podem ampliar a capacidade de análise e oferecer novas informações, mas continuam sendo pessoas que interpretam, questionam e assumem responsabilidade pelas decisões.
A centralidade do ser humano também modifica as competências necessárias aos conselhos de administração. Além do conhecimento técnico, ganham relevância a escuta ativa, o pensamento crítico, o discernimento ético e a capacidade de lidar com ambiguidades. A governança, segundo Valéria, dilui o poder: decisões colegiadas exigem que diferentes perspectivas possam efetivamente chegar à mesa e ser consideradas. Diversidade, nessa lógica, não se resume a gênero ou origem; envolve reunir experiências, competências e visões distintas para melhorar a qualidade das decisões e ampliar a capacidade de inovação das organizações.
A entrevista também chama atenção para a relação entre tecnologia, valores e confiança. Quando decisões apoiadas por algoritmos produzirem resultados economicamente atraentes, mas entrarem em conflito com a cultura ou o propósito de uma companhia, Valéria é clara ao colocar os valores e a ética da organização em primeiro plano. Da mesma forma, a inteligência artificial não substitui a necessária confiança entre conselho e gestão. Informações precisam chegar aos órgãos de governança, problemas não devem ser ocultados e conselheiros devem exercer seu papel de supervisão sem romper a cooperação necessária com os executivos.
Uma das mensagens mais relevantes de Valéria Café em sua entrevista é a centralidade do ser humano diante das transformações tecnológicas. Ferramentas mudam, ambientes econômicos se transformam e novos riscos surgem continuamente. Permanecem, porém, perguntas essenciais: quem decide, com quais informações, segundo quais valores e assumindo quais responsabilidades? A governança capaz de enfrentar os próximos anos provavelmente será mais tecnológica, mais adaptativa e mais orientada por cenários – mas continuará dependendo, em última instância, da capacidade humana de ouvir, discernir, questionar e decidir.
Nos dias 7 e 8 de outubro, ocorre o Congresso IBGC, cujo tema será O ser humano na liderança da transformação – formulação que dialoga diretamente com uma das ideias centrais destacadas por Valéria Café: mesmo diante do avanço tecnológico e da crescente complexidade das organizações, a capacidade humana de interpretar, ponderar valores, assumir responsabilidades e decidir continua no centro da boa governança.
Sugestão de consulta:
E veja aqui a página deste Espaço Governança que repercute as publicações da coluna Orquestra Societária, na Revista RI.