Representação simbólica, inspirada no Relatório Our Common Future.
Desenvolver o presente,
sem comprometer as possibilidades do futuro.
Gro Harlem Brundtland ajudou a colocar no centro do debate mundial uma pergunta que atravessa gerações: como atender às necessidades das pessoas que vivem hoje sem comprometer a capacidade daqueles que viverão amanhã de atender às suas próprias necessidades? A questão parece simples de ser compreendida, mas contém um dos maiores desafios da governança em todos os recortes possíveis: decisões presentes podem produzir consequências que permanecerão muito depois daqueles que as tomaram.
Médica e política norueguesa, Brundtland nasceu em Bærum, em 1939, e cresceu em Oslo. Formou-se em medicina e obteve mestrado em saúde pública. Sua trajetória aproximaria campos que frequentemente eram tratados de maneira separada: saúde, desenvolvimento, meio ambiente e política. Foi ministra do Meio Ambiente e, em 1981, tornou-se a primeira mulher e, à época, a pessoa mais jovem a ocupar o cargo de primeira-ministra da Noruega. Voltaria à chefia do governo em outros dois períodos, permanecendo mais de dez anos no cargo.
Foi, porém, outra missão que associaria definitivamente seu nome à história da sustentabilidade. Em 1983, o secretário-geral das Nações Unidas convidou Brundtland para estabelecer e presidir a World Commission on Environment and Development, posteriormente conhecida como Comissão Brundtland. O desafio era examinar conjuntamente problemas que já não podiam ser adequadamente compreendidos de maneira isolada: meio ambiente, pobreza, crescimento econômico, desenvolvimento e utilização dos recursos naturais.
O resultado desse trabalho foi publicado em 1987 com o título Our Common Future — Nosso Futuro Comum. O relatório tornou-se um dos documentos mais influentes da história da sustentabilidade e ajudou a difundir mundialmente o conceito de desenvolvimento sustentável: desenvolvimento capaz de atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às próprias necessidades.
A formulação tornou-se tão conhecida que sua aparente simplicidade pode esconder a profundidade do conceito. O próprio relatório destacava duas ideias fundamentais. A primeira era a das necessidades, especialmente as necessidades essenciais das populações pobres, às quais deveria ser atribuída prioridade. A segunda era a existência de limitações, relacionadas ao estado da tecnologia e à organização social, sobre a capacidade do meio ambiente de atender às necessidades presentes e futuras.
Portanto, desenvolvimento sustentável não significava simplesmente preservar a natureza. O conceito procurava relacionar desenvolvimento econômico, necessidades humanas, pobreza, tecnologia, organização social e limites ambientais. A questão não era escolher entre desenvolvimento e meio ambiente, mas compreender que a permanência do primeiro depende também das condições que o segundo oferece.
Essa perspectiva produziu uma mudança importante. Crescimento econômico poderia continuar sendo necessário, sobretudo em sociedades nas quais necessidades básicas permaneciam insatisfeitas. Mas passava a importar também a qualidade desse crescimento: como recursos eram utilizados, como custos e benefícios eram distribuídos e quais condições seriam deixadas para aqueles que viessem depois. O próprio relatório incluiu entre seus imperativos estratégicos mudar a qualidade do crescimento, atender necessidades humanas essenciais, conservar a base de recursos, reorientar a tecnologia e integrar meio ambiente e economia à tomada de decisões.
Surge então uma dimensão especialmente poderosa do legado associado a Brundtland: a responsabilidade entre gerações. Pessoas que ainda não nasceram não votam, não participam de conselhos de administração, não negociam com governos e não possuem assento à mesa quando as decisões são tomadas. Mesmo assim, poderão receber durante décadas os benefícios ou os custos dessas decisões.
Recursos naturais, infraestrutura, conhecimento, instituições, tecnologias, dívidas e passivos ambientais podem atravessar gerações. Alguns dos interessados nas decisões de hoje somente existirão amanhã.
A sustentabilidade introduz, assim, um problema extraordinariamente difícil para a governança: como considerar interesses que ainda não possuem voz? Governos respondem a eleitores presentes; empresas convivem com acionistas, empregados, consumidores e demais stakeholders presentes; administradores são avaliados dentro de determinados ciclos. Entretanto, algumas decisões produzem efeitos que ultrapassam mandatos políticos, períodos de gestão e até a vida de quem decidiu.
Imagine-se a exploração de determinado recurso natural. Seus benefícios econômicos podem aparecer rapidamente sob a forma de produção, empregos, investimentos e arrecadação. Parte dos custos ambientais, entretanto, pode surgir lentamente ou permanecer incompreendida durante décadas. Se o processo decisório considerar apenas os benefícios imediatos, pessoas diferentes, e até gerações diferentes poderão receber parcelas profundamente desiguais dos benefícios e dos custos.
Isso não significa que toda utilização de recursos deva ser impedida ou que interesses futuros devam automaticamente prevalecer sobre necessidades presentes. Essa seria uma simplificação incompatível com Our Common Future. O relatório reconhecia a necessidade de desenvolvimento econômico e social e dava especial atenção às necessidades essenciais dos mais pobres. O desafio era conciliar necessidades presentes e futuras, e não sacrificar mecanicamente umas em favor das outras.
Há, portanto, uma segunda dimensão que não pode desaparecer da leitura de Brundtland: equidade entre gerações e equidade dentro da geração presente estão relacionadas. O relatório afirmava que a preocupação com a equidade social entre gerações deveria ser estendida à equidade dentro de cada geração. Sustentabilidade não seria alcançada ignorando pobreza persistente e desigualdades no acesso aos recursos.
É nesse ponto que sustentabilidade e governança se encontram de maneira particularmente clara. Governança trata, entre outras questões, de como decisões são tomadas, interesses são considerados, responsabilidades são distribuídas e consequências são supervisionadas. Brundtland acrescenta uma dimensão temporal a esse problema: governar bem também exige considerar consequências que podem surgir quando os atuais decisores já não estiverem presentes.
Essa exigência modifica o horizonte da decisão. Avaliação de impactos, planejamento, ciência, transparência, gestão de riscos e mecanismos de responsabilização podem ajudar governos e organizações a reconhecer consequências que não aparecem imediatamente nos orçamentos, nas demonstrações financeiras ou nos resultados eleitorais.
Mas pensar no longo prazo não significa pretender conhecer perfeitamente o futuro. Há incerteza, mudanças tecnológicas, transformações sociais e acontecimentos impossíveis de antecipar. A responsabilidade intergeracional não exige previsão perfeita. Exige que a incerteza sobre o amanhã não seja utilizada como justificativa para ignorar consequências relevantes das decisões tomadas hoje.
É também por isso que Brundtland ocupa uma posição singular entre as personalidades associadas à sustentabilidade. Rachel Carson mostrou como determinadas escolhas humanas podiam produzir consequências ambientais extensas e inicialmente pouco percebidas. Donella Meadows ajudou a compreender relações, retroalimentações, atrasos e limites nos sistemas. Amartya Sen ampliou a própria ideia de desenvolvimento ao colocá-la em relação com capacidades e liberdades humanas. Brundtland ajuda a reunir ambiente e desenvolvimento dentro de uma perspectiva que atravessa o tempo: necessidades humanas precisam ser atendidas hoje sem destruir as possibilidades de atendê-las amanhã.
Não são pensamentos idênticos, nem foram construídos como partes de uma única teoria. Mas, observados em conjunto, revelam uma progressão interessante: Carson evidencia consequências; Meadows revela sistemas; Sen pergunta pelas possibilidades humanas; Brundtland incorpora o futuro ao desenvolvimento.
A trajetória de Brundtland reforça essa visão integrada. Médica de formação, ela relacionou desde cedo saúde, ambiente e desenvolvimento. Décadas depois da Comissão que presidiu, assumiu a direção-geral da Organização Mundial da Saúde, cargo que exerceu de julho de 1998 a julho de 2003. Ao assumir a OMS, procurou colocar a saúde firmemente na agenda internacional do desenvolvimento e deu prioridade à melhoria da saúde das populações pobres.
Essa passagem pela OMS ajuda a compreender por que seria inadequado reduzir sua contribuição à proteção ambiental. Sustentabilidade, em sua trajetória, envolve pessoas. Saúde, pobreza, desenvolvimento e ambiente pertencem a sistemas que se influenciam mutuamente. Uma sociedade que cresce economicamente, mas não consegue converter parte desse crescimento em condições dignas de vida, apresenta um problema de desenvolvimento; uma sociedade que satisfaz necessidades presentes destruindo sistematicamente sua base ambiental apresenta um problema de permanência.
A influência de Our Common Future também ultrapassou o documento. A própria OMS registra que as recomendações da Comissão contribuíram para o processo que conduziu à Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, a Rio-92. A partir daquele período, desenvolvimento sustentável consolidaria progressivamente sua presença na linguagem de governos, organizações internacionais, empresas e sociedade civil.
Nas organizações, essa mudança de horizonte também possui consequências importantes. Um investimento pode apresentar retorno financeiro no curto prazo e produzir passivos ambientais, sociais ou reputacionais durante muitos anos. Inversamente, determinados investimentos presentes em inovação, segurança, eficiência ou proteção ambiental podem gerar benefícios que somente aparecerão no futuro.
Isso não significa que exista uma solução universal para equilibrar todas essas variáveis. Desenvolvimento sustentável não elimina conflitos entre objetivos econômicos, sociais e ambientais. Ele obriga a torná-los visíveis. E, ao torná-los visíveis, dificulta que custos sejam simplesmente transferidos para outros grupos, outros lugares ou outros momentos sem que essa transferência seja considerada no processo decisório.
A questão tornou-se ainda mais relevante diante das mudanças climáticas, da transição energética, da perda de biodiversidade, da urbanização e das transformações tecnológicas. Muitos desses desafios possuem exatamente a característica que o pensamento associado a Brundtland ajudou a colocar no centro do debate: decisões presentes produzem benefícios e custos distribuídos de maneira desigual no espaço e no tempo.
É possível que uma das contribuições mais duradouras de Gro Harlem Brundtland resida justamente aí: ajudar a introduzir o futuro entre os interessados das decisões do presente. Pessoas que ainda não nasceram não podem participar das escolhas que afetarão suas vidas. A ausência de voz, porém, não significa ausência de interesse.
Quase quatro décadas depois de Our Common Future, a pergunta permanece extraordinariamente atual: como atender às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades do futuro? Não se trata de abandonar o desenvolvimento, mas de perguntar que desenvolvimento pode permanecer; não de escolher simplesmente entre economia, sociedade e meio ambiente, mas de reconhecer que suas relações determinarão aquilo que deixaremos para quem vier depois.
Governar de maneira sustentável significa compreender que algumas consequências de nossas escolhas sobreviverão aos próprios decisores. O futuro não participa das reuniões de hoje. Mas estará presente nos resultados das decisões hoje tomadas.
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