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| Imagem: Gaspar Nóbrega/SOS Mata Atlântica |
Cristina Malheiros e Renzo Carvalho, empregados da Gerência de Geotecnia da Vale, prestaram depoimentos à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado, no dia 9 de abril de 2019. No dia 11, foi a vez do ex-diretor da área de ferrosos e carvão da Vale, Gerd Peter Poppinga, prestar depoimento.
Os senadores da CPI questionaram a engenheira Cristina sobre diferenças entre informações encaminhadas à Agência Nacional de Mineração (ANM) e registros internos da Vale relativos à barragem rompida. Também perguntaram sobre problemas nos instrumentos de monitoramento da estrutura.
A técnica explicou que as avaliações internas e aquelas comunicadas à ANM haviam sido feitas em datas diferentes e, segundo ela, refletiam condições distintas da barragem. Sobre as leituras discrepantes dos instrumentos, afirmou que a TÜV SÜD, empresa contratada para inspecionar a barragem e avaliar sua estabilidade, havia reportado alterações à Vale por meio de e-mails dos quais ela não participou. Disse que só tomou conhecimento desses problemas depois do rompimento e sustentou que, no acompanhamento que realizava, não identificara sinais que a alertassem para uma possível ruptura.
A CPI também ouviu o depoimento de Renzo Carvalho, gerente, questionando aspectos como a localização de instalações ocupadas por empregados em uma área alcançada pelos rejeitos e a existência de seguro para a barragem. Outras questões também foram apresentadas pelos membros da CPI.
Entre suas explicações, o gerente afirmou que a estrutura era considerada segura, segundo a informação de que dispunha, proveniente de outra área da companhia. Ao responder sobre a localização das instalações, comparou a situação à de outras barragens, inclusive de usinas hidrelétricas. Essa comparação expressava a posição do depoente, sem demonstrar, por si, que a localização fosse adequada ou segura. Informou também desconhecer se havia seguro para a barragem, não sendo este assunto da esfera de sua gerência.
No dia 11, o ex-diretor da área de ferrosos e carvão da Vale, Gerd Peter Poppinga, depôs à CPI de Brumadinho. Questionado se teria tido acesso a um relatório da própria Vale, elaborado meses antes do rompimento, que indicava problemas na barragem do Córrego do Feijão, o executivo negou ter conhecimento. Ele informou nunca ter estado na barragem rompida anteriormente e que as equipes de campo da Vale tinham autonomia para tomar decisões de segurança sobre barragens. Segundo a Agência Senado, Poppinga também respondia, naquele momento, a uma ação penal relacionada ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Ele negou responsabilidade pelo episódio. A existência da ação não equivalia a uma condenação.
A CPI aprovou, em 9 de abril, requerimento de transferência dos sigilos bancário e telefônico de Makoto Namba, engenheiro da TÜV SÜD, que havia exercido o direito de permanecer em silêncio, assegurado pelo STF, na semana anterior perante a CPI. Aprovou ainda uma proposta de ajuizamento de ação cautelar para indisponibilidade de bens de quatro dirigentes afastados da Vale: Fabio Schvartsman, Gerd Poppinga, Lúcio Cavalli e Silmar Silva. A aprovação desse requerimento não significava que o bloqueio judicial já tivesse ocorrido.
Os depoimentos colocavam em discussão um problema central de governança: a circulação de informações sobre riscos entre equipes técnicas, consultorias e dirigentes. Produzir medições e relatórios é apenas parte do processo. Também é necessário definir quem recebe os alertas, quem avalia as divergências e quem tem autoridade para determinar providências quando a segurança está em questão.
A autonomia das equipes operacionais também precisava ser examinada em conjunto com os deveres de supervisão. Em organizações complexas, delegar decisões pode tornar a resposta mais rápida, mas exige responsabilidades claras, recursos e mecanismos para levar problemas graves aos níveis superiores. A confiança nas equipes deve ser acompanhada de controles capazes de verificar se informações relevantes estão chegando a quem precisa decidir.
Naquele momento, a CPI ainda reunia elementos para esclarecer o rompimento e apurar responsabilidades. Sem antecipar suas conclusões, as audiências permitiam uma reflexão mais ampla: um sistema de governança deve conectar o conhecimento técnico às decisões de proteção das pessoas e do meio ambiente. Essa conexão precisa funcionar antes que o risco se transforme em desastre.
Fontes e sugestões de consulta:
