quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Brumadinho: reflexões após o primeiro mês do desastre

Ilustração conceitual. Não representa um registro fotográfico.

Em 25 de fevereiro, completou-se um mês do rompimento da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale S/A, em Brumadinho (MG). As buscas continuam, famílias aguardam notícias e os impactos humanos e ambientais ainda estão sendo avaliados. Nesse cenário, as primeiras reflexões precisam combinar atenção às necessidades imediatas com perguntas sobre prevenção, responsabilidades e governança.

As notícias deste primeiro mês mostram diferentes dimensões da resposta ao desastre. O atendimento às pessoas atingidas, a proteção dos profissionais envolvidos nas buscas, o resgate de animais e o acompanhamento dos cursos de água exigem esforços simultâneos. A investigação das causas também precisa avançar, sem que hipóteses ou declarações sejam apresentadas como conclusões definitivas.

Em janeiro, a Justiça determinou que a Vale providenciasse meios para resgatar, acolher e tratar os animais atingidos. Segundo notícia que reproduziu informações do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a decisão da juíza Perla Saliba Brito ressaltou que essa atuação não deveria prejudicar o resgate das vítimas humanas. A medida evidencia que a resposta precisa considerar diferentes necessidades e organizar os recursos de maneira coordenada.

Outra questão é a proteção de quem trabalha nas operações. Em fevereiro, o governo de Minas Gerais informou alterações em exames de quatro bombeiros para parâmetros relacionados a alumínio e cobre. Segundo o comunicado reproduzido pela Agência Brasil, os profissionais não apresentavam sintomas, e as alterações não significavam intoxicação aguda. Essas informações precisam ser consideradas com seus limites, sem dispensar o acompanhamento da saúde dos trabalhadores.

No campo ambiental, a Agência Nacional de Águas (ANA) anunciou, em janeiro, um plano especial de monitoramento do Rio Paraopeba, envolvendo outras instituições e a coleta de amostras para análises físicas e químicas. A avaliação dos impactos exige medições, comparação de resultados e comunicação clara sobre o que os dados permitem concluir. A extensão dos danos não deve ser presumida apenas pela aparência da água ou por projeções sobre o deslocamento dos rejeitos.

O mercado de capitais também reagiu. Em decisão de 7 de fevereiro, o Conselho Deliberativo do Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 determinou a exclusão das ações da Vale da carteira do ISE a partir de 12 de fevereiro. A B3 explicou que a medida considerava os efeitos do desastre e a aplicação da metodologia do índice, sem representar um prejulgamento das responsabilidades da companhia.

Para a governança empresarial, essa decisão suscita uma reflexão sobre a relação entre avaliações de sustentabilidade e segurança efetiva. Participar de um índice pode fornecer informações relevantes ao mercado, mas não garante que todos os riscos de uma organização estejam controlados. Conselhos e diretorias precisam acompanhar as condições concretas das operações e verificar como os compromissos divulgados se traduzem em recursos, controles e decisões.

O rompimento também exige examinar a circulação das informações técnicas. Quem produzia as avaliações da barragem? Quem recebia os alertas e analisava as divergências? Quais providências podiam ser determinadas e por quem? Essas perguntas orientam a investigação e a reflexão sobre governança, mas não autorizam atribuir antecipadamente responsabilidades individuais.

A distribuição de funções entre equipes técnicas, administradores, empresas contratadas e órgãos públicos precisa permitir decisões coordenadas. Relatórios e procedimentos têm valor quando são compreendidos e utilizados por quem deve agir. É necessário verificar como as informações eram consideradas e como os mecanismos de supervisão funcionavam, confrontando documentos, depoimentos e demais evidências.

Os planos de emergência merecem atenção semelhante. Definir rotas, alertas e responsabilidades em um documento exige verificar se as pessoas conseguem executar os procedimentos nas condições reais de uma emergência. Treinamentos, comunicação e localização das instalações precisam ser examinados em conjunto com os riscos da atividade.

Na resposta ao desastre, a prestação de contas deve alcançar as pessoas atingidas. Informações sobre buscas, atendimento e medidas de assistência precisam ser acessíveis, compreensíveis e atualizadas. As famílias devem encontrar canais para apresentar necessidades e obter esclarecimentos, com respeito à sua situação e aos seus direitos.

Neste primeiro mês, ainda não é possível apresentar um balanço definitivo das consequências ou das responsabilidades. Já é necessário, contudo, assegurar continuidade às buscas e à assistência, preservar elementos para a investigação e acompanhar as medidas de proteção. A contribuição da governança será transformar o conhecimento produzido em decisões capazes de reduzir riscos e proteger pessoas e ecossistemas.


Espaço Governança


Fontes e sugestões de consulta:

Justiça determina que Vale resgate animais afetados pelo desastre de Brumadinho – Hoje em Dia