sábado, 20 de junho de 2026

Lionel Messi e o treino invisível das organizações


Governança e gestão requerem método e treino.

Kansas City, 16 de junho de 2026. Aos 38 anos de idade, Lionel Messi entrou em campo para disputar sua sexta Copa do Mundo. Para muitos atletas, apenas alcançar esse momento já representaria uma conquista extraordinária. Para Messi, contudo, a noite reservava algo ainda mais impressionante. Aquela seria uma noite memorável para o atleta.

O primeiro gol surgiu como tantas vezes ocorreu ao longo da carreira do atleta. A oportunidade apareceu por um breve instante e foi convertida com a naturalidade que costuma acompanhar os grandes talentos. Para muitos espectadores, aquele talvez parecesse apenas mais um lance decisivo. Para quem observa trajetórias de longo prazo, entretanto, aquele momento carregava décadas de preparação silenciosa.

O segundo gol trouxe uma mensagem diferente. Já não era o jovem prodígio que encantou o mundo nos primeiros anos de Barcelona. Era um atleta moldado pelo tempo, pelas vitórias, pelas derrotas, pelas lesões e pelas transformações do próprio futebol. O gol refletia algo que apenas os verdadeiramente longevos conseguem demonstrar: a capacidade de adaptação.

O terceiro gol completou o hat-trick, expressão usada para designar três gols de um mesmo jogador em uma partida, e selou a vitória argentina por três a zero sobre a Argélia, em uma atuação histórica de Lionel Messi. Mais do que fechar o placar, aquele lance simbolizou algo raro no esporte de alto rendimento: a permanência. Em uma competição que tradicionalmente celebra a juventude, Messi demonstrava que a excelência pode sobreviver ao tempo quando existe disciplina suficiente para transformar talento em legado.

Naquela noite, o mundo viu três gols. O que permaneceu invisível foram os milhares de treinos, ajustes, sacrifícios e decisões que tornaram aqueles gols possíveis. E talvez seja justamente aí que começa a principal reflexão para conselheiros de administração, executivos C-Level e demais lideranças organizacionais. Lionel Messi é mais do que um talento estelar.

Talento não explica tudo

Seria absurdo negar o extraordinário talento de Messi. Poucos atletas na história combinaram, ao longo de suas carreiras, visão de jogo, técnica, inteligência e capacidade de decisão em níveis tão elevados. Ainda assim, o talento sozinho não explica uma carreira construída ao longo de mais de duas décadas no mais alto nível competitivo.

A história do esporte está repleta de jogadores extremamente talentosos que desapareceram precocemente. Alguns sucumbiram a lesões. Outros não conseguiram se adaptar às mudanças nas regras e no estilo do jogo, cada vez mais duro, veloz e competitivo. Houve ainda aqueles que simplesmente perderam a disciplina necessária para sustentar o desempenho.

O mesmo fenômeno ocorre no ambiente organizacional. Organizações podem nascer de ideias brilhantes, produtos inovadores ou fundadores excepcionais. Contudo, inúmeras empresas promissoras desaparecem poucos anos depois de seu surgimento. O sucesso inicial pode ser fruto do talento. A permanência depende de algo mais complexo, mais estruturado e, frequentemente, menos visível.

Talvez a maior lição da trajetória de Messi seja que desempenho duradouro raramente depende de um único fator. Surge da combinação entre direção e execução, disciplina e adaptação, integração entre presente e futuro. Poderíamos chamar isso de disciplina invisível: o conjunto de decisões, ajustes e renúncias que nunca aparecem nos relatórios, mas que determinam se os resultados visíveis serão episódicos ou duradouros. Organizações que dominam a disciplina invisível produzem gols memoráveis e as demais os assistem.

Quando governança e gestão jogam bem

Governança e gestão têm funções distintas, mas complementares. A governança estabelece direção, supervisiona riscos, define limites e assegura que a organização permaneça fiel aos seus objetivos de longo prazo. A gestão, por sua vez, transforma essa direção em ação, convertendo estratégias em resultados concretos.

Na prática, essa complementaridade exige rituais específicos. A governança pode adotar a pergunta recorrente: esta decisão fortalece nossa capacidade de escolher amanhã? A gestão, por sua vez, pode implementar projetos e rotinas com diligência e disciplina, periodicamente se perguntando: estamos fazendo o melhor que podemos? São perguntas que não aparecem em balanços, mas que funcionam como termômetros silenciosos da longevidade.

Na metáfora do futebol, a governança não entra em campo para jogar. Ela define o modelo de jogo, estabelece limites, observa riscos e cobra coerência com o longo prazo. A gestão, por sua vez, organiza o time, ajusta suas práticas durante a partida e transforma direção em resultado.

Quando uma dessas dimensões enfraquece, o equilíbrio é rompido. Organizações podem apresentar excelente execução operacional e, ainda assim, acumular riscos que comprometam seu futuro. Da mesma forma, podem ter estruturas formais de governança sofisticadas, mas carecer da capacidade de executar adequadamente suas estratégias.

A longevidade organizacional surge justamente da capacidade de alinhar essas duas forças. Enquanto a governança protege o futuro, a gestão constrói o presente. Enquanto uma preserva a capacidade de gerar valor, a outra transforma potencial em desempenho. As organizações verdadeiramente extraordinárias conseguem combinar as duas dimensões. Produzem resultados consistentes ao mesmo tempo em que preservam sua capacidade de continuar produzindo resultados.

Um aspecto relevante é que atletas sabem exatamente que sua carreira terminará. Organizações, em regra, desejam o contrário: sobreviver aos seus fundadores, executivos e conselheiros. Por isso, a sucessão ocupa papel central na governança. Enquanto o atleta busca prolongar sua permanência, a organização busca garantir sua continuidade. Nesse sentido, a sucessão não é apenas um evento de transição – é um teste permanente da qualidade da governança. Organizações que planejam sucessão apenas quando ela se torna urgente revelam que governavam para o presente, não para o futuro.

Essa assimetria – atleta que sabe que terminará sua carreira, organização que deseja não terminar sua trajetória – impõe à governança um paradoxo: ela deve planejar a sucessão como se fosse inevitável, mas cultivá-la como se fosse a última oportunidade. A sucessão bem-sucedida não resolve o problema da continuidade; ela o transforma em um processo contínuo de renovação, no qual cada líder prepara seu sucessor não para repeti-lo, mas para superá-lo.

A Copa de cada organização

Disputar uma sexta Copa do Mundo exige longevidade e Lionel Messi mostrou que isso é possível com brilho, desempenho e disciplina permanente na gestão de seu próprio corpo. Nenhum atleta permanece competitivo por tanto tempo apenas em razão do talento. Existe método, disciplina, preparação e adaptação contínua.

Para um atleta profissional, o seu corpo é uma organização que precisa ser administrada. Alimentação, descanso, recuperação muscular, prevenção de lesões e adaptação física exigem decisões permanentes. De certa forma, Messi passou décadas governando e gerindo sua principal empresa: ele mesmo.

Disputar décadas de relevância empresarial exige algo semelhante. Organizações participam de um jogo com desafios que, em muitos aspectos, lembram os ciclos vividos por atletas de alto rendimento. Tecnologias surgem e desaparecem. Regulamentos são alterados. Mercados se transformam. Novos concorrentes emergem. Comportamentos de consumo evoluem.

No ano em curso e nos próximos, temas como inteligência artificial, geopolítica, segurança cibernética, sustentabilidade, transição energética e transformação digital continuarão exigindo capacidade de adaptação das organizações. Nenhuma empresa permanecerá relevante simplesmente porque foi bem-sucedida no passado. A verdadeira prova da longevidade não está em alcançar uma posição de destaque. Está em continuar merecendo essa posição quando o ambiente ao redor muda continuamente.

Governar e gerir para durar

Os três gols de Messi não foram produzidos naquela noite. Foram produzidos ao longo de décadas. O que o estádio viu foi o resultado visível de um processo invisível. Cada treinamento, cada ajuste físico, cada adaptação tática e cada decisão tomada ao longo da carreira contribuíram para aqueles momentos.

Nas organizações ocorre exatamente o mesmo. Os resultados aparecem nos relatórios, nos indicadores, nas manchetes e nas apresentações aos investidores. O que raramente aparece com a mesma intensidade são os mecanismos que sustentam esses resultados: planejamento, cultura, sucessão, gestão de riscos, transparência e disciplina estratégica.

A governança orienta o desempenho para a longevidade. A gestão transforma potencial em execução. A primeira cria condições para que resultados extraordinários não sejam apenas episódicos. A segunda converte essas condições em entrega concreta no presente.

Talvez seja por isso que organizações longevas se pareçam menos com um lance genial e mais com uma carreira inteira construída com disciplina. O mercado vê os gols. A gestão conduz o treino. A governança garante que ele continue acontecendo. E é da combinação entre ambas que nasce a verdadeira capacidade de durar.

Mais uma palavra sobre Lionel Messi

Messi marcou três gols naquela noite, em Kansas City. Mas o verdadeiro placar começou a ser construído décadas antes. Nas organizações, ocorre o mesmo. Os resultados se apresentam aos stakeholders em um dia. A longevidade é construída todos os dias.

Aos 38 anos, Messi não é o mesmo jogador que aos 22. Seu corpo mudou, mas o que que não mudou foi sua capacidade de compreender o que o jogo exigia em cada momento. Essa não é uma habilidade de talento, mas de adaptação. Organizações longevas fazem o mesmo: não permanecem relevantes porque repetem o passado, mas porque compreendem, continuamente, o que o ambiente espera delas.

Independentemente do resultado da Copa do Mundo de 2026, Lionel Messi já ocupa um espaço singular na história do esporte. Seus feitos o colocam entre os maiores atletas que o futebol já produziu. Seus títulos continuarão sendo celebrados. Mas talvez sua maior contribuição esteja em demonstrar que a excelência raramente é fruto de um único momento brilhante. Ela costuma ser consequência de milhares de decisões corretas tomadas silenciosamente ao longo do tempo.


Mônica Mansur Brandão