por Roberto Locatelli,
sócio e editor-chefe da Editora Sucesso, bem como escritor
O que vem primeiro? O ovo ou a galinha? Esse enigma sem solução está presente quando a pergunta é: a sociedade molda o individuo ou os indivíduos moldam a sociedade?
Há muitos séculos os filósofos se debruçam sobre as relações entre o indivíduo e a sociedade.
Um trabalhador de grande empresa, ganhando salário mínimo, não verá a si mesmo como perdedor, mas como lutador. E esse trabalhador terá mais condições de entender relações sociais que o profissional liberal não entende, pois não fazem parte da realidade dele.
Naturalmente aqui estamos generalizando. Sem dúvida há profissionais liberais que têm, sim, o senso da coletividade, assim como há profissionais do mundo corporativo que são individualistas.
Possivelmente, no mundo real, há uma influência mútua entre o indivíduo e a coletividade na qual ele está inserido. Um molda o outro. Há pessoas com potencial criativo/intelectual morando nas favelas? Certamente há. Mas a ampla maioria deles jamais poderá expressar sua genialidade, pois estão ocupados batalhando pelo pão de cada dia, talvez catando latinhas de alumínio nos lixos de restaurantes e bares.
No livro “Fora de Série” (Outliers) o autor, Malcolm Gladwell, mostra que os indivíduos notáveis são resultado de uma combinação entre talento, treinamento e, por fim, uma oportunidade singular que só eles tiveram. Se faltar um dos fatores, o sucesso não virá. É o caso dos que nascem pobres. Se houver oportunidade – acrescentamos nós – o indivíduo terá sucesso financeiro, mesmo com pouco talento. Os bilionários não são gênios, são, muitas vezes, pessoas que nasceram em lares abastados. Os gênios não ficam bilionários, embora fiquem famosos. Einstein não ficou bilionário, Nicola Tesla morreu pobre, Leonardo da Vinci só sobreviveu pela graça de reis mecenas. Claro que aqui estamos falando de uma regra geral, que certamente terá exceções, para um lado ou para o outro.
Ainda sobre o livro “Fora de Série”, é importante mencionar que o autor considerou que Bill Gates, Jobs e outros tiveram acesso precoce a computadores (oportunidade). Isso fez toda a diferença.
Nós, humanos, somos uma espécie social. Nossa sociedade é construída para que cada um contribua com uma parte, para formar o todo. Por exemplo: se você pedir ao dono da Nvidia, empresa de processadores, para fabricar um processador, e der a ele todas as ferramentas necessárias, ele não saberá como fazer. Os processadores de qualquer marca são criados em enormes linhas de montagem, em que cada funcionário sabe fazer sua parte. É a coletividade – no caso, a empresa –criando um produto tecnológico que um ser humano isolado não consegue criar. Por outro lado, cada ser humano que participa do processo tem que ter um talento para realizar a operação específica da qual está encarregado.
Nossa posição, como o amigo leitor já deve ter percebido, é que ambos – indivíduo e sociedade – são importantes e nós nos beneficiamos da interação mútua entre esses entes.
Podemos fazer um paralelo com as abelhas. A colmeia é a coletividade. Nela, todos trabalham pelo bem comum. Mas, as abelhas que saem procurando flores fazem um trabalho individual. Encontrando um local com flores promissoras em néctar, essas abelhas voltam para a colmeia e informam, através de movimentos como de uma dança, a localização, a distância desse campo florido e o quanto é promissor esse local com flores. A partir daí, outras abelhas avaliam se vale a pena explorar esse tesouro, se a distância compensa.
Podemos fazer uma analogia com o átomo. Ou com o que sabemos dele neste momento. No átomo, há forças de coesão e forças de repulsão. O equilíbrio entre essas forças produz o resultado final, o átomo em si. Traduzindo isso para termos humanos, podemos dizer que todos precisamos de momentos de quietude e solidão. Mas também precisamos de períodos de interação e convívio. Se um dos dois nos falta, nós nos desequilibramos.
Somos essa espécie que transita entre o individual e o social. E, no fim, uma coisa alimenta a outra.
A sociedade humana, apesar dos pesares, está evoluindo gradativamente. Passamos da Idade da Pedra à Idade do Bronze, dominamos uma tecnologia que nossos avós nem sonhavam.
Falta-nos agora evoluir em termos de qualidade de vida, bem-estar, direitos para todos. Há um longo caminho a percorrer. Para isso, há que se romper com o egocentrismo individualista de alguns e há que se reforçar o coletivismo solidário que falta a muitos de nós.
Abaixo, alguns autores que abordaram o tema deste artigo. O fato de os citarmos não quer dizer que haja concordância. Aliás, são autores com pontos de vista díspares.
Émile Durkheim (1858-1917), considera que a sociedade não é mera soma de indivíduos; ela exerce sobre cada um uma ‘consciência coletiva’ que nos antecede e nos constrange. Já Max Weber (1864-1920) nos lembrava que a ação individual, orientada por valores e interesses, também transforma as estruturas sociais. Karl Marx (1818-1883), por sua vez, via na luta de classes a dialética entre determinação social e agência humana: ‘Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha’.
Na mesma esteira, o psicólogo social russo Lev Vygotsky (1896-1934) demonstrou que o próprio pensamento humano se constitui na interação com o outro: o ‘eu’ nasce do ‘nós’. E, mais recentemente, o sociólogo Anthony Giddens (1938-) propôs a teoria da ‘estruturação’, segundo a qual as estruturas sociais são, ao mesmo tempo, condição e resultado da ação dos indivíduos.
Em resumo, Durkheim via a sociedade como ‘um ser distinto’. Weber via o indivíduo como ‘o portador da ação’. Marx reconciliava os dois na práxis. E Giddens, nosso contemporâneo, nos dá a imagem final: as regras e os recursos que herdamos só existem porque os reconstruímos a cada ato individual. O indivíduo sem o coletivo é abstração; o coletivo sem indivíduos é tirania.
Voltando à parábola que iniciou este artigo, nossa conclusão é que ovo e galinha se produzem mutuamente. Cabe a nós, como espécie, inclinar esse ciclo para mais solidariedade e menos para o egocentrismo.
