sábado, 28 de setembro de 2019

Brumadinho: tragédia faz oito meses

Fonte: jornal Hoje em Dia. As buscas seguem.

Em 25 de setembro, completaram-se oito meses do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale S/A, em Brumadinho (MG). Reportagem publicada naquela data registrava 249 mortos e 21 desaparecidos. Esses números correspondiam ao balanço então divulgado e permanecem sujeitos a atualização conforme avançam as buscas e a identificação das vítimas.

Os trabalhos do Corpo de Bombeiros continuam nas áreas atingidas. Segundo o Hoje em Dia, em 25 de setembro a operação mobilizava 149 militares, com auxílio de 166 máquinas e um drone, distribuindo os trabalhos em 18 frentes. Esses dados retratam a estrutura mobilizada naquela data. A continuidade das buscas exige planejamento, recursos e proteção à saúde e à segurança dos profissionais envolvidos.

Investigações parlamentares

No Senado, a CPI aprovou seu relatório final em 2 de julho, recomendando o indiciamento de 14 pessoas: 12 profissionais da Vale e dois da TÜV SÜD, empresa responsável pela declaração de estabilidade da barragem. Entre os nomes está o ex-presidente da Vale, Fábio Schvartsman. O documento também recomenda a responsabilização das empresas por crimes ambientais.

Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o relatório final foi aprovado em 12 de setembro. A comissão recomendou o indiciamento de 13 pessoas: 11 dirigentes e funcionários da Vale e dois auditores da TÜV SÜD. Também propôs uma instância para acompanhar os desdobramentos das investigações e o cumprimento das medidas recomendadas. As conclusões expressam a avaliação da comissão sobre os elementos reunidos; não equivalem a uma condenação judicial.

A CPI da Câmara dos Deputados ouviu representantes das pessoas atingidas em 16 de setembro, em reunião realizada na ALMG. Foram apresentadas demandas relativas à assistência e à reparação. O relatório final da comissão ainda é aguardado, e seu conteúdo dependerá da análise das informações e das deliberações dos deputados.

Em Belo Horizonte, a CPI das Águas e Barragens aprovou um relatório que relaciona o rompimento à interrupção da captação no Rio Paraopeba e aos riscos para o abastecimento da capital. O documento também examina ameaças associadas a outras barragens e recomenda medidas para proteger as estruturas de abastecimento. Essas conclusões precisam ser acompanhadas de providências pelos órgãos responsáveis.

Investigação policial

Em 20 de setembro, a Polícia Federal apresentou os resultados de uma primeira etapa da investigação. Foram indiciados 13 profissionais, sete da Vale e seis da TÜV SÜD, em investigação sobre falsidade ideológica e documentos relacionados às declarações de estabilidade da barragem.

Segundo a autoridade policial, a apuração dos crimes ambientais e contra a vida continua, com necessidade de elementos periciais sobre o mecanismo do rompimento. Identificar uma causa física não determina, por si, a intenção ou a responsabilidade de cada envolvido. Essa avaliação também exige examinar condutas, deveres, informações disponíveis e decisões tomadas. Os indiciamentos não equivalem à apresentação de denúncia pelo Ministério Público nem a uma condenação.

Decisão judicial e pagamentos emergenciais

Em decisão de 18 de setembro, divulgada no dia seguinte, o juiz Rodrigo Heleno Chaves, da comarca de Brumadinho, condenou a Vale ao pagamento de R$ 11,875 milhões por danos morais a familiares de Luiz e Camila Taliberti e de Fernanda Damian, esposa de Luiz, grávida quando morreu. A decisão também considerou o sofrimento dos familiares pela perda do bebê que ela esperava.

Segundo informações do Tribunal de Justiça de Minas Gerais reproduzidas pelo UOL, tratava-se da primeira sentença em ação individual relacionada ao rompimento. A decisão é de primeira instância e está sujeita a recurso. Seu valor corresponde às circunstâncias daquela ação e não constitui uma tabela geral de indenização.

Os pagamentos emergenciais decorrem de um acordo preliminar firmado em 20 de fevereiro entre a Vale e instituições públicas. O instrumento estabeleceu pagamentos por um ano, contado a partir de 25 de janeiro, para moradores de Brumadinho e de comunidades situadas até um quilômetro do leito do Paraopeba, no trecho até a represa de Retiro Baixo, conforme os critérios definidos.

Os valores mensais previstos eram de um salário mínimo por adulto, metade por adolescente e um quarto por criança. Esses pagamentos atendem necessidades imediatas e devem ser distinguidos das indenizações e da reparação definitiva dos danos.

Compromissos do setor mineral e saúde da população

Em 9 de setembro, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) apresentou uma carta-compromisso do setor mineral à sociedade. O documento anuncia uma transformação das práticas da mineração. Trata-se de um compromisso público, cuja realização dependerá das medidas adotadas e de resultados verificáveis.

As necessidades da população permanecem centrais. Reportagem do Estado de Minas publicada em 9 de setembro, com informações da Secretaria Municipal de Saúde, registrou aumento dos atendimentos na rede primária de aproximadamente 33 mil para 54 mil no primeiro quadrimestre de 2019, em comparação com o mesmo período de 2018. A publicação também apontou preocupações com a saúde mental dos moradores. Esses dados reforçam a necessidade de assistência continuada, sem permitir atribuir isoladamente cada atendimento a uma única causa.

Para a governança pública, o balanço dos oito meses mostra a importância de acompanhar o que acontece depois de cada relatório, decisão ou anúncio. Investigações parlamentares e policiais, ações judiciais e assistência cumprem funções distintas. A coordenação exige responsáveis definidos, informações acessíveis e acompanhamento das providências, para que os encaminhamentos produzam efeitos concretos.

Para a governança empresarial, compromissos de transformação precisam alcançar as operações. Recursos para prevenção, supervisão das avaliações técnicas, registro de divergências e critérios para interromper atividades inseguras ajudam a conectar informação, decisão e proteção das pessoas. A recuperação da confiança dependerá do funcionamento desses mecanismos.

A reparação também precisa ser avaliada pelas condições de vida das pessoas atingidas. Saúde, água, moradia, trabalho, renda e participação nas decisões são referências essenciais. Oito meses depois, as iniciativas em curso não permitem concluir que os danos estejam reparados ou que a apuração das responsabilidades tenha terminado. A passagem do tempo exige continuidade na assistência, nas buscas e na prevenção.


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Fontes e sugestões de consulta: