sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Quais são as teorias da governança corporativa?


O tema governança corporativa tem sido objeto de muitos estudos e, na esfera acadêmica, esses trabalhos podem ser enquadrados dentro de quatro grandes teorias, conforme explicam James P. Hawley e Andrew P. Williams, no artigo Corporate governance in the United States: the rise of fiduciary capitalism (1996), além de Shann Turnbull no artigo Corporate governance: its scope, concerns and theories (1997, em referência a Hawley e Williams):

Modelo financeiro (simple finance model)

Governança corporativa focaliza a a defesa dos interesses dos sócios da empresa.

Modelo dos stakeholders (stakeholders model)

Governança corporativa focaliza a busca de equilíbrio entre um conjunto de interesses de vários stakeholders da empresa.

Modelo administrativo ou de procuradoria (administrative model)

Governança corporativa focaliza boa administração, em nível da cúpula empresarial.

Modelo político (political model) 

Governança corporativa focaliza a atuação de públicos corporativos, entre investidores e outros, face às mudanças no ambiente institucional, ou seja, nas regras do jogo.

Os quatro modelos acima citados, identificados pelos professores Hawley e Williams para o contexto dos EUA, podem ser considerados, para fins de reflexão, em outros contextos que não sejam os EUA. 

Adicionalmente, os quatro modelos em questão são faces distintas de um mesmo tema; isto porque governança corporativa é um constructo, ou seja, uma categoria que somente pode ser entendida a partir do estudo de várias linhas de pensamento.

A figura a seguir constitui uma tentativa de representar a governança corporativa, suas principais teorias e seu embasamento na ciência econômica:


Figura 1 - Edificação: Governança Corporativa

A figura anterior se baseia na produção acadêmica de estudiosos como Ronald Coase, Oliver Williamson, Douglas North, James P. Hawley, Andrew P. Williams e Shann Turnbull entre muitos outros. 

Na figura, a governança corporativa corresponde a uma edificação com bases assentadas na Ciência Econômica, especialmente na chamada economia institucional, representada por Coase, Williamson, North e outros pensadores. Na edifícação em tela, cada modelo corresponde a um portal, que pode ser adentrado para análises e reflexões.

Ao mesmo tempo, os quatro portais representados na figura acima não são as únicas formas de análise da edificação representada, que também pode ser analisada sob outros ângulos ou visões específicas, considerando aspectos como relações de poder, assimetria informacional, aspectos culturais e vários outros da governança corporativa.

Finalizando, ainda que nenhuma representação seja rica o suficiente para representar completamente uma ideia, o esforço de comunicação expresso na figura anterior ajuda a ampliar o entendimento de um tema não trivial como governança corporativa.


Mônica Mansur Brandão

(Revisado em 28/2/2025 e 15/4/2026)


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Comentários
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1) Existem outras formas de qualificar modelos de governança corporativa na literatura especializada.

2) Exemplificando: na entrevista realizada por Cida Hess e Mônica Brandão com Adriana de Andrade Solé, na Revista RI - Relações com Investidores (edição 293), a entrevistada apresenta um quadro com outra lógica para a expressão supracitada, que pode ser vista aqui.

3) Na lógica apresentada pela entrevistada Adriana Solé, os modelos de governança corporativa são considerados combinando seis contextos distintos - anglo-saxão, alemão, japonês, chinês, latino-europeu e latino-americano - com 10 variáveis relevantes para a governança. 

4) Acreditamos que ambas a lógicas são válidas - a do artigo deste post (baseada em pesquisa bibliográfica dos autores James P. Hawley e Andrew P. Williams, a qual não perdeu atualidade) e a da entrevistada (oportuna, mostrando outro ângulo da governança corporativa). E outras lógicas também podem ser válidas.

5) Quando o artigo acima foi elaborado, ainda estávamos distantes de temas como Inteligência Artificial (IA), geopolítica, diversidade de conselhos e vários outros hoje presentes nas pautas dos conselhos de administração. A passagem do tempo ora revela uma agenda bem mais desafiadora para os conselheiros administrativos.

6) A complexidade da agenda de governança pode ser percebida no artigo Governança corporativa e seus eixos integrados, publicado neste EG.

A Autora

(15/4/2026)