Em tempos de grandes mudanças geopolíticas e urgências sucessivas, declarar o “fim do ESG” pode parecer simplificação de agenda. Mas será a agenda realmente aliviada e simplificada? Será que os conceitos de governança, sustentabilidade e riscos desaparecem porque um discurso muda?
Duas siglas, em especial, são conhecidas no âmbito do tema sustentabilidade: TBL (Triple Bottom Line) e ESG (Environment, Social and Governance). Sugerimos a leitura do artigo Desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, TBL e ESG, para melhor entendimento dessas duas siglas e de suas origens.
Se TBL é o “porquê”, a lógica do equilíbrio, ESG é o “como”, agregando o sistema de decisão e o controle, traduzindo o espírito do TBL em governança prática. Em essência, as duas siglas não têm a ver com criar uma vitrine moral, mas com a busca de sobrevivência e longevidade, com perceber riscos materiais e governá-los – antes que se tornem lamentáveis perdas econômicas e de outras naturezas.
A sigla ESG, cujo conteúdo emerge do ambiente de investidores e é o foco deste artigo, tem perdido prestígio?
Nos últimos anos, investidores globais passaram a tratar a sigla com cada vez menos menções. E três vetores principais podem explicar o que se passa, em nossa opinião:
1) Geopolítica e energia – as mudanças do jogo geopolítico, a segurança energética e a sobrevivência industrial recolocam cadeias produtivas críticas no centro de políticas e práticas econômicas. Prioridades de atenção mudam.
2) Pressões de curto prazo – juros, custo de capital e competição tornam a agenda mais cirúrgica. O que que não é percebido como essencial, cai. Aqui, a percepção é o que conta, não o que seja realmente essencial.
3) Rejeição a narrativas – parte dos públicos de mercado querem mais resultados de curto prazo, face a incertezas de um ambiente global complexo.
Apesar do desgaste percebido em suas citações no ambiente de mercado global, destaca-se que ESG:
1) trouxe os riscos para o centro da governança corporativa. Questões antes laterais entraram no radar de conselhos administrativos e diretorias executivas. Riscos passaram a ser precificados (ou melhor precificados), ainda que de forma imperfeita, e organizou-se melhor a conversa com o capital – investidores, bancos e seguradoras entre outros players;
2) forçou empresas a observarem suas cadeias de valor, fornecedores irregulares e fraquezas na rastreabilidade, propiciando, para aqueles que deram importância aos seus respectivos achados, uma melhor visão de providências a tomar. Aumentou a disciplina de métricas e processos; medir, auditar, reportar e corrigir tornaram-se rotinas em organizações; e,
3) elevou o custo da irresponsabilidade, pois reputação, litígios e perdas passaram a aparecer com mais rapidez e mais impacto.
Ao mesmo tempo, algumas críticas são necessárias, especialmente quanto à forma de implementação de ESG em parte das organizações, tais como:
1) Carência de materialidade, já que, por vezes, correu-se para parecer alinhado, sem foco no que realmente poderia interromper operações e destruir valor. Metas desconectadas da realidade operacional e compromissos sem planos efetivos tornaram-se munição contra o próprio tema.
2) Burocratização e o paper ESG, uma vez que o relato pode ter se tornado mais importante do que os benefícios que traz, com indicadores, mas sem decisões consequentes de sua observação atenta.
3) O deplorável greenwashing, que não saiu de cena, lembrando que promessas bonitas e execução frágil corroem a credibilidade. Linguagem baseada em frases e slogans vazios, desconectados de orçamentos, investimentos e incentivos eficazes não ajudam a criar credibilidade.
Dito isso, indagamos: será mesmo o fim da sigla ESG?
Depende: em que sentido? Por que essa segunda pergunta é importante?
Primeiramente porque ESG ocupa um lugar conceitual relevante na linha do tempo dos temas governança corporativa & sustentabilidade, sendo a sustentabilidade um princípio da governança. Se o TBL nunca perdeu seu lugar de honra quando consideramos tudo o que foi cientifica e institucionalmente desenvolvido sobre esses dois temas entrelaçados, em âmbito global, porque ESG perderia?
Em segundo lugar, se a sigla ESG perde força, como sigla, segundo a visão de grandes investidores (e líderes organizacionais, na sequência), o essencial permanece – precisa permanecer, em prol da sobrevivência e longevidade organizacional. Assim, remanescem:
1) as ideias centrais de governança & sustentabilidade, relacionadas à capacidade de a organização continuar existindo e gerando valor sem destruir as bases que sustentam a operação – como pessoas, recursos financeiros, confiança e licença social para operar entre outras;
2) a administração de riscos materiais, daquilo que pode parar a operação, destruir valor, inviabilizar financiamentos ou gerar passivos. Nesse sentido, ESG, em seu lado metodológico, tem muito a contribuir, ainda que não seja mencionada em reportes e nas explicações ao mercado; e,
3) a necessidade de que se diga a verdade, pois o silêncio corporativo pode ser prenúncio de crise. Algumas vezes tem sido.
Em suma, o eventual desaparecimento de uma sigla em manifestações de investidores ou mesmo nos reportes organizacionais não implica desaparecimento real das ideias que essa sigla representa.
Retornando ao início deste breve artigo, em tempos de grandes mudanças geopolíticas e urgências sucessivas, declarar o “fim do ESG” pode parecer simplificação de agenda. Mas a mudança de discurso não implica perda da importância conceitual da sigla para os estudiosos, ou distanciamento da essencialidade, do que precisa ser feito pelas organizações – ao menos aquelas que pretendem chegar bem ao futuro.
Mônica Mansur Brandão
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