quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Quais são as teorias da firma e como elas se relacionam à governança corporativa?


Luigi Zingales, no artigo Corporate governance (1997), afirma que, antes de discutir sobre como a firma deve ser governada, é preciso definir o que é a firma, palavra frequentemente usada por economistas para se referir à entidade empresarial ou empresa.

O conceito de firma começa a emergir no âmbito da chamada economia neoclássica, pois os economistas clássicos não se ocuparam especificamente do mesmo. E quais são os principais conceitos de firma, segundo a economia? No artigo Governança corporativa: algumas reflexões teóricas sob a perspectiva da economia, as professoras Patrícia Bernardes e Mônica Mansur Brandão identificam a firma, de forma não exaustiva, segundo três visões distintas:

1 - Visão administrativa.
2 - Visão dos recursos e do conhecimento.
3 - Visão dos custos de transação.

A visão administrativa, que se confunde com a própria ciência administrativa, resulta dos trabalhos de autores como Frederick W. Taylor, Henri Fayol, Max Weber, Herbert Simon, Chester Barnard e muitos outros pensadores que têm criado e contribuído para sedimentar as múltiplas teorias organizacionais. Nesta perspectiva, a firma é uma coletividade a ser coordenada, para entregar bens e serviços à sociedade, recebendo, em contrapartida, retornos econômicos pelo reconhecimento de seus esforços.  

A visão dos recursos e do conhecimento referencia-se em autores como Frederich von Hayek, Joseph A. Schumpeter, Edith Penrose, R. R. Nelson e S. G. Winter entre outros e é consistente com a percepção da firma como uma coleção de recursos tangíveis e intangíveis, potencialmente mobilizáveis em prol do seu desenvolvimento. Os recursos citados devem ser empregados para construir o futuro. A perspectiva dos recursos e do conhecimento está relacionada com a estratégia, a ser construída de dentro para fora.

Quanto à visão dos custos de transação, esta baseia-se no pensamento de Ronalde Coase, Oliver E. Williamson, Douglass North, J. Rogers Hollingsworth e Robert Boyer, destaques entre muitos outros autores. Nesta perspectiva, a firma existe para reduzir custos contratuais, ou seja, de transação, tornando-se um fulcro de relações contratuais de prazo indefinido, no caso de empregados, e de curto e longo prazo com outras contrapartes. A firma e as demais organizações e estruturas de coordenação de atividades econômicas coexistem em um ambiente perpassado por regras do jogo formais e informais, ao qual elas reagem e, eventualmente, também influenciam.

Qual dessas três visões é a correta? Todas, cada uma a seu modo, pois o conceito de firma, como outros,  constitui um constructo, categoria cuja compreensão exige o estudo de várias teorias, para que se possa formar uma boa idéia do objeto de estudo. São constructos também temas como organização, governança corporativa e estratégia, apenas para citar.

Como estas quatro visões se relacionam com as teorias da governança corporativa?O artigo Quais são as principais teorias da governança corporativa? descreve as quatro principais linhas de pensamento sobre este tema, quais sejam: 1. modelo financeiro (a firma deve atender aos interesses  dos sócios); 2. modelo dos stakeholders (a firma deve equilibrar interesses de vários públicos relevantes, entre sócios e outros); 3. modelo administrativo ou de procuradoria (a firma deve ser bem administrada por sua cúpula); e, 4) modelo político (a firma deve responder ou responde às mudanças do ambiente institucional).

Quando se consideram as três teorias da firma e as quatro teorias da governança corporativa citadas, chega-se ao seguinte quadro de associações entre esses dois arcabouços teóricos:


Note-se que as visões administrativa e dos recursos e do conhecimento estão mais relacionadas, como não poderia deixar de ser, ao modelo administrativo de  governança. Quanto à visão dos custos de transação, esta corresponde ao principal embasamento para os modelos financeiro, dos stakeholders e político da governança, no âmbito da ciência econômica. 

Enfatiza-se, finalizando, a leitura do artigo Governança corporativa: algumas reflexões teóricas sob a perspectiva da economia, já citado, no qual todas as teorias supracitadas são descritas.

Mônica Mansur Brandão