A resiliência é uma das qualidades mais admiráveis dos seres humanos e das organizações por eles conduzidas e operadas. Pessoas e organizações resilientes conseguem enfrentar perdas, crises, injustiças, doenças, fracassos e pressões sem desistirem da própria caminhada; não são frias ou blindadas, mas aprendem a suportar impactos sem perder completamente a capacidade de seguir em frente, com boas realizações e evoluindo em vários planos.
A história da humanidade é caracterizada pela resiliência. Povos sobreviveram a guerras, recessões, epidemias e catástrofes porque houve capacidade de reconstrução. Famílias inteiras atravessaram dificuldades extremas graças à coragem silenciosa de pessoas comuns. Em muitos momentos, a resiliência foi o que impediu que o sofrimento destruísse totalmente a esperança.
Em um mundo instável, a resiliência se tornou um fator importante de sobrevivência emocional, profissional e financeira. Na pandemia Covid-19, foi fundamental para muitas pessoas e organizações ao redor do Planeta. Quantas situações vimos nas quais se enfrentaram condições muito difíceis, mas se aprendeu com elas e se melhorou o que pode ser melhorado?
No plano das empresas, especificamente, aquelas resilientes conseguem atravessar crises econômicas, mudanças tecnológicas, rupturas de mercado e períodos de grande estresse sem colapsarem, apesar da intensa pressão. Elas se adaptam, reorganizam estratégias, estruturas, processos e projetos, lideram pessoas e seguem. A resiliência é o que separa organizações duradouras daquelas que desaparecem diante das primeiras turbulências.
Uso da palavra resiliência sob risco
O uso da palavra resiliência corre o risco de migrar do status de um conceito nobre, legítimo e admirável para o de uma ferramenta de simples manipulação emocional, no bojo de uma cultura organizacional que pode ser caracterizada em uma palavra: tóxica. Nos últimos anos, parte do mundo corporativo tem usado a palavra em um discurso repetido quase como um mantra; todavia, discursos podem ser diferentes das práticas vigentes, de fato, na organização.
Tememos que o termo resiliência, o qual por vezes utilizamos, tenha começado a sofrer uma deformação perigosa. Em certos ambientes, ser resiliente pode significar a convivência em caráter constante com metas irreais, excesso de pressão, jornadas abusivas, falta de estrutura, desorganização crônica, sem falar no desrespeito psicológico. Problemas deixam de ser causas de sofrimento e passam a ser supostas fragilidades de quem sofre sob cobranças desproporcionais.
É nesse ponto que a resiliência pode deixar de ser uma virtude, passando a funcionar como uma espécie de anestesia tóxica. Isto porque existe uma diferença enorme entre fortalecer pessoas e acostumá-las ao absurdo. Um ambiente profissional saudável desenvolve profissionais fortes e resilientes; um ambiente tóxico apenas normaliza o desgaste intenso e desnecessário, se houver boa governança e boa gestão.
Preocupante se torna a romantização do esgotamento. Frases como "os melhores crescem sob pressão", "aqui é para os fortes", "temos couraça dura" e outras congêneres podem esconder falhas graves de governança e gestão. Ao invés de se resolverem problemas estruturais com racionalidade e boas técnicas, transfere-se silenciosamente todo o peso do que precisa ser melhorado para os ombros de seres humanos sem real poder de promover mudanças. E pessoas desumanamente sobrecarregadas podem estar locadas da base ao topo da organização, submetidas a uma pressão desproporcional.
O discurso-clichê versus a efetiva resiliência
O falso discurso da resiliência começa quando a organização deixa de corrigir o ambiente e passa a exigir que as pessoas suportem o insuportável. Nesse cenário, o termo resiliência torna-se apenas um nome elegante para tolerância ao caos.
Não se defende, por certo, fragilidade, acomodação ou ausência de responsabilidade. As organizações e os mercados requerem maturidade emocional, disciplina e capacidade de lidar com adversidades reais. Nenhuma organização opera sem pressão, metas e cobranças, isso é fato. Mas há grande diferença, para não dizer disparidade, entre desafios profissionais legítimos e ambientes continuamente destrutivos.
Organizações que buscam uma cultura realmente saudável e produtiva entendem a resiliência da forma correta. Seus líderes sabem que o termo não nasce apenas de pressão, mas também de segurança psicológica, clareza, organização, reconhecimento e propósito. Seres humanos tendem a suportar muito mais quando sentem que existe justiça, coerência e respeito.
A verdadeira resiliência não transforma sofrimento em troféu; permite enfrentar dificuldades sem a perda de lucidez, dignidade e humanidade. Pessoas e organizações resilientes aprendem, adaptam-se e continuam avançando, sem o enfrentamento contínuo de situações insuportáveis, apenas porque alguém diz "temos que ser resilientes". Resiliência saudável fortalece; falsa resiliência apenas protege lideranças que moldam uma cultura execrável.
Finalizando, a resiliência não pode ser a arte de sobreviver em aquários rachados enquanto alguém chama isso de cultura de alta performance. Resiliência não tem nada a ver com essa falsa condição de superação e sucesso.
Mônica Mansur Brandão
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