sexta-feira, 24 de abril de 2026

Precisamos sair de nossa zona de conforto. Será?


A frase “Precisamos sair de nossa zona de conforto!” é, por vezes, usada no vocabulário motivacional contemporâneo. Ela pode emergir em palestras, treinamentos, redes sociais, coaching ou reuniões corporativas, quase sempre como se fosse uma verdade indiscutível. O problema é que a frase carece de precisão e precisa ser contextualizada, caso a caso, pois existem contextos em que ela não funciona como reflexão, mas como fórmula simplificadora e, por vezes, injusta.

A sedução da frase está em sua aparente obviedade: parece forte, moderna, transformadora, soa como um chamado à coragem. Mas, sem a devida contextualização, ela pode sugerir respostas fáceis para realidades complexas, já que nem todo conforto é acomodação, nem todo desconforto é crescimento, e nem toda mudança é virtude.

Assim, apresentamos aqui uma crítica à frase em questão, sem pretender desrespeitar quem pensa de maneira diferente. Afinal, concordamos que a língua portuguesa é rica, admirável e admite várias interpretações sobre palavras e frases. Ao mesmo  tempo, afirmativas que convidam a decisões importantes requerem muito cuidado com a sua interpretação.

A crítica aqui apresentada não é para defender a passividade, a inércia ou o medo que paralisa, mas para separar o que seja reflexão do mero clichê. Há momentos em que mudar é necessário e há outros em que permanecer é sabedoria. A questão não é simplesmente “sair” de um lugar e/ou "entrar" em outro. O desafio é compreender com lucidez onde se está, se vale a pena ficar, para onde vale a pena ir (se for o caso), em prol de qual propósito e por quais motivos. 

Quando a afirmativa é dirigida a seres humanos

No plano individual, a frase “Precisamos sair de nossa zona de conforto!” costuma trazer uma ideia discutível: a de que o conforto é, por definição, um inimigo do crescimento. Isso nem sempre é verdade. Existem confortos que não são sinais de acomodação, mas resultados legítimos de maturidade, competência e experiência acumulada. Uma vida minimamente organizada, uma rotina equilibrada, um ofício dominado com segurança, por exemplo, não deveriam ser tratados como sintomas de comodismo, só porque já não produzem a adrenalina dos primeiros tempos de prática e aprendizado.

Além disso, a frase em questão costuma ignorar o contexto real em que boa parte das pessoas vive. Quem está sobrecarregado, esgotado, endividado, adoecido, emocionalmente fragilizado pode não estar preso a uma “zona de conforto”, mas simplesmente tentando sobreviver. Nesses casos, sugerir que a pessoa “saia da zona de conforto” pode soar superficial e até cruel, conforme a situação. Aqui, o problema não é falta de ambição, mas desconforto exacerbado, no limite ou além do estado de exaustão.

Existe ainda um erro mais sutil: a glorificação automática do desconforto; entretanto, sofrimento, insegurança e tensão não têm valor de transformação por si mesmos. O que faz alguém crescer não é o desconforto em estado bruto, per se, mas o desafio que tem propósito, direção, sentido e proporcionalidade, ainda que haja insegurança e tensão. Há experiências difíceis que fortalecem, mas há outras que, conforme o nível de intensidade, apenas adoecem. Ademais, a coragem verdadeira não consiste em aceitar qualquer ruptura, mas em discernir quais rupturas valem o preço que cobram e agir.

Quando a afirmativa é dirigida a organizações 

No ambiente organizacional, a expressão "sair da zona de conforto" também pode ser usada de modo irrefletido. Líderes de organizações podem dizer que "é preciso sair da zona de conforto" quando, na verdade, o que talvez falte é bom diagnóstico, boa estratégia e forte disciplina de execução, sem perder de vista eventuais ajustes. Há organizações que não estão acomodadas, apenas desorganizadas em seus processos. Outras não estão estáticas, mas buscando consolidar resultados. As possibilidade sãos várias e referir-se a "zona de conforto” nesses casos pode operar mais como slogan de pressão do que como análise e compreensão real do negócio e do seu estágio de evolução. 

A expressão "sair da zona de conforto" também pode estar presente para justificar movimentos apressados, projetos analisados de modo sofrível e superficial, além de mudanças constantes sem critério. A organização pode tratar estabilidade como pecado, prudência como fraqueza e continuidade como atraso. Nesse ambiente, rupturas podem ser celebradas como virtudes, mesmo quando não emergem de inteligência estratégica, mas de ansiedade ou – isso pode ocorrer! – de agendas pessoais. O problema pode não ser "permanecer demais"; mas "mudar demais" – e sem realmente entender por quê.

Existe ainda um uso corporativo particularmente perigoso dessa frase: transformá-la em linguagem moral para legitimar cobranças despropositadas – situações que realmente adoecem pessoas! – em ambientes caóticos ou caotizados. Lideranças despreparadas podem tratar de “saída da zona de conforto” estratégias e táticas impróprias para lidar com o caos, com um alto nível de desorganização. Uma organização bem administrada, todavia, valoriza clareza, coordenação, capacidade de adaptação, ordem no que precisa ser organizado e mudança que faz sentido – tudo isso com propósito. O que sustenta organizações fortes, robustas, não é caos heroico, mas inteligência estratégica disciplinada.

Organizações precisam atuar com governança e gestão corporativas, administração estratégica, administração de riscos e de outras variáveis relevantes. Elas necessitam reunir dados, estudar informações, ouvir, refletir, escolher caminhos entre alternativas possíveis. Este é, por exemplo, o trabalho dos conselhos de administração, com o suporte das diretorias executivas, nas organizações onde ambas as instâncias existem. Sair de "zonas de conforto" são apenas uma entre várias outras alternativas estratégicas disponíveis à inteligência disciplinada requerida, eis a verdade.

Qual seria uma melhor formulação?

Pessoas e organizações não crescem simplesmente pelo eventual status de "conforto" ou "desconforto". Crescem quando se propõem a enfrentar desafios com propósito, direção, sentido, preparo. O verdadeiro problema é o nevoeiro diante do momento certo de permanecer, ajustar ou mudar. Adicionalmente, há confortos que protegem, confortos que apenas revelam que algo foi bem construído, confortos que anestesiam e – sim, há muitas outras situações confortáveis possíveis. Mas tratar o conforto como se esse fosse, per se, algo sempre negativo, pode empobrecer a realidade, ameaçando a existência e os negócios.

A frase "Precisamos sair de nossa zona de conforto!" seguirá sendo usada, não temos dúvida. Mas é preciso ser crítico sobre os limites de sua validade, já que ela precisa ser contextualizada caso a caso. Talvez a formulação melhor seja algo bem mais exigente: precisamos ter clareza sobre os desafios que temos e sobre o que podemos e devemos fazer bem feito. Mudar muitas vezes é importante, mas é preciso entender se faz sentido e quando.  


 


Mônica Mansur Brandão


Sugestões de leitura: