quarta-feira, 14 de maio de 2025

O pensamento multidisciplinar na obra "O Mercador de Veneza" (1/3)

 

O Mercador de Veneza é uma das peças mais conhecidas de William Shakespeare, notória por sua trama envolvente e personagens marcantes. Além de ser uma obra literária clássica, oferece rico material para análise sob diferentes perspectivas. De maneira explícita e implícita, William Shakespeare aborda questões econômicas, jurídicas e outras relevantes, relacionadas ao ambiente de O Mercador de Veneza, sobre as quais se pode refletir à luz do conhecimento atual. Assim sendo, comecemos pela Economia.

PARTE I - ECONOMIA

O ambiente econômico em que se movimentam as personagens

A economia do contexto da peça pulsa sob a sua superfície. Ambientada na efervescente cidade portuária de Veneza, no século XVI, O Mercador de Veneza apresenta um retrato vívido de uma economia mercantil altamente dinâmica, caracterizada pelo comércio internacional dos primórdios da globalização, pela presença de formas de crédito ainda distantes da padronização, da ampla acessibilidade e da segurança institucional características dos sistemas bancários modernos, e por elevados riscos comerciais e financeiros. A peça é usualmente datada de 1596-1597, com impressão em 1600.

Naquela época, o crédito não se organizava, em sentido moderno, por meio de instituições bancárias amplamente acessíveis, reguladas e padronizadas como as de hoje. A atividade de empréstimo de dinheiro para empreendimentos de risco era exercida por particulares abastados, mercadores e prestamistas, isto é, agentes que forneciam capital a terceiros em troca de juros, garantias e condições específicas. Isso não significa ausência de práticas bancárias e de crédito organizado: Veneza, Gênova e Florença já possuíam tradição relevante em comércio, depósitos, transferências e serviços bancários, ainda que muito diversa da intermediação financeira contemporânea. 

A cobrança de juros era cercada de restrições morais e religiosas: enquanto os cristãos recriminavam, ao menos em tese, a prática de cobrar juros entre si, os judeus, também em razão de restrições sociais, jurídicas e ocupacionais que lhes eram impostas, passaram a ocupar espaço relevante no financiamento privado. Historicamente, esse papel decorreu menos de uma simples diferença confessional e mais de um ambiente de exclusão que restringia outras vias de inserção econômica.

As opções de financiamento na Veneza daquele tempo eram variadas, embora marcadas por riscos elevados e por limitações institucionais próprias do período, com destaque para:

1. Empréstimos entre particulares, baseados em confiança ou contratos rudimentares;

2. Empréstimos com juros, com cláusulas severas, oferecidos por prestamistas;

3. Parcerias comerciais, em que um sócio aportava recursos para um empreendimento de risco; e,

4. Penhor de bens e navios, comum entre mercadores.

Além dessas modalidades, outras formas de financiamento marcaram a economia da Europa Ocidental do período, como os empréstimos marítimos ou foenus nauticum, em que o pagamento dependia do sucesso da viagem; as sociedades de investimento coletivo – semelhantes a companhias por ações embrionárias –; bem como o uso crescente das letras de câmbio, que permitiam transferências e adiantamentos sem o transporte físico de moeda.
 
Antônio, o mercador cristão, é rico, mas todo o seu capital está investido em navios que cruzam os mares em prol da compra e venda de mercadorias, o que o torna muito vulnerável a perdas e inadimplência. Isso evidencia o elevado risco intrínseco associado a essa atividade econômica. E, por se encontrar momentaneamente sem recursos em caixa, Antônio se vê na constrangedora situação de pedir recursos emprestados ao prestamista judeu Shylock, a quem devotava desprezo, a fim de ajudar o amigo Bassânio. 

Assim, O Mercador de Veneza vai além de histórias pessoais entrelaçadas: é um retrato dramatizado da ascensão do capitalismo comercial europeu, em um contexto no qual o crédito privado já se revelava economicamente relevante, mas ainda carecia da previsibilidade, da capilaridade e das salvaguardas institucionais que hoje facilitam seu acesso e reduzem parte de sua opacidade. E em que a honra e a amizade ainda eram invocadas entre os cristãos.

A peça pode ser lida, em certa medida, como um confronto entre o capitalismo mercantilista e o capitalismo financeiro do momento em que os fatos acontecem. Talvez seja ainda mais preciso dizer que a peça encena uma tensão entre duas racionalidades econômicas que coexistem e se atritam: de um lado, a lógica mercantil do comércio, da circulação de bens e do risco empresarial; de outro, a lógica creditícia da remuneração do capital, da garantia e da precificação do risco. Antônio representa claramente a primeira lógica; Shylock, a segunda. 

Dois modelos de empréstimos distintos e o conflito interno de Antônio

Antônio e Shylock atuam em um mesmo nicho (empréstimos), mas com modelos de financiamento distintos: sem juros versus com juros. A não cobrança de juros impacta o modelo prestamista e causa atritos, senão vejamos: 

a) Antônio, cristão, mercador internacional e homem de posses, destaca-se por emprestar dinheiro aos amigos necessitados sem cobrar juros, algo louvável eticamente aos olhos de seus pares cristãos.

b) Shylock, judeu, prestamista com recursos financeiros, sustenta-se cobrando juros de quem precisa de crédito, atividade que, em diversas regiões da Europa medieval e renascentista, figurava entre as poucas economicamente abertas aos judeus

c) No modelo cristão, a confiança entre pessoas é a base de sustentação de empréstimos. No modelo prestamista, a confiança é limitada e o risco é precificado pela cobrança de juros.

d) Shylock e outros prestamistas se ressentem do modelo de empréstimo cristão que, a seu ver, rebaixa as taxas de juros por eles cobradas.

É visível que pedir dinheiro emprestado a Shylock – três mil ducados, com promessa de devolução em três meses – é algo altamente incômodo para Antônio que, por sua religião e ética, rejeita a cobrança de juros. Ademais, o mercador também abomina a figura de Shylock, a quem abertamente manifesta desprezo, inclusive no momento do pedido de empréstimo. 

Todavia, sem recursos em caixa para ajudar Bassânio, Antônio opta por se submeter ao modelo prestamista, para não deixar o amigo sem apoio. Assim, face a dificuldades momentâneas de caixa, o mercador participa de uma transação de empréstimo com Shylock, aceitando oferecer uma garantia macabra: uma libra de sua carne, se não honrasse o empréstimo contraído. Antônio acredita que honrará o contrato, porque deposita confiança excessiva no retorno de suas operações mercantis.

Alguns elementos econômicos a destacar

Há elementos específicos da terminologia econômica que merecem ser aqui comentados. O primeiro é a questão da confiança. Entre Antônio e Shylock, inexiste confiança: ambos, aliás, entram no acordo com rancor, formalizando-o por escrito. Antônio empresta recursos a Bassânio sem contrato escrito, movido pela amizade e pela honra; já com Shylock, o formalismo se torna necessário. 

Em segundo lugar, menciona-se a presença de termos da Matemática Financeira. A referência a itens como valor do empréstimo, prazo de devolução e taxa de juros traz para o centro do palco uma terminologia financeira corriqueira nos tempos atuais. Shakespeare, séculos antes da formalização de muitas teorias econômicas, já dramatizava conceitos como valor do dinheiro no tempo e risco de crédito, presentes na própria relação de empréstimo.

Por fim, e como terceiro elemento a considerar, tratemos da teoria das expectativas racionais. Sem antecipar formalmente categorias da teoria econômica contemporânea, Shakespeare parece explorar os limites de uma leitura estritamente racional da conduta econômica. Shylock propõe juro zero para Antônio, mas amarra o contrato a uma garantia cruel: uma libra da carne de Antônio. O prestamista abre mão do seu retorno financeiro imediato em prol de um fortíssimo ressentimento pessoal. A formulação moderna da hipótese das expectativas racionais é associada a John F. Muth, em 1961; por isso, é mais rigoroso dizer que a peça antecipa uma intuição crítica sobre os limites de modelos puramente maximizadores.

Sobre Shylock: estamos diante de um agente econômico que atua não sob a primazia da maximização do lucro no caso em questão, mas sob a força de uma motivação emocional, moral e simbolicamente carregada: a vingança. O homo economicus racional não desaparece por completo, mas é profundamente tensionado em Shylock, movido pelo ódio, pelo ressentimento e pela memória da humilhação.

Mais algumas reflexões

A Economia, embora por vezes erroneamente tratada como ciência exata, é profundamente humana. Seus números e equações não existem no vácuo, operam com base em pessoas e suas motivações profundas. O Mercador de Veneza nos lembra disso, ao dramatizar como decisões financeiras podem estar enraizadas em honra, amizade ou ressentimento.

William Shakespeare nos mostra que o risco não reside apenas nas flutuações do mercado, mas no comportamento humano. A Economia, portanto, não é feita apenas de taxas e prazos, mas de escolhas, nem sempre racionais. 

Finalizando, a confiança, tão central na peça quanto nos mercados modernos, continua sendo o ativo mais valioso de qualquer transação. Contratos com cláusulas severas podem mitigar riscos contratuais, mas a história de Antônio e Shylock ilustra com perfeição como a ausência de confiança calcada na boa-fé pode transformar um contrato em uma bomba-relógio moral e econômica. A Economia necessita de confiança e boa-fé. Sem confiança e boa-fé, até o contrato mais formal pode ocultar uma desordem moral prestes a explodir.


Continua em: