O filme Alexandria, cujo título original é Ágora, dirigido por Alejandro Amenábar e lançado em 2009, apresenta uma narrativa ambientada no Egito sob domínio romano. Sua protagonista é Hipátia, interpretada por Rachel Weisz, professora dedicada à filosofia, à matemática e à astronomia, em uma cidade atravessada por conflitos religiosos e disputas de poder.
Na narrativa, o interesse pelo conhecimento convive com pressões para que as pessoas se submetam às convicções dos grupos que conquistam influência. Hipátia procura compreender o mundo por meio do estudo e do questionamento, enquanto as tensões ao seu redor tornam cada vez mais difícil preservar um espaço para a investigação e a divergência.
A produção combina personagens históricos e elementos de ficção. Por isso, suas cenas não devem ser tomadas como reprodução literal dos acontecimentos, nem como explicação suficiente para um período histórico complexo. Seu valor para esta reflexão está nas perguntas que permite formular sobre conhecimento, autoridade e intolerância.
O que essa narrativa pode oferecer ao mundo corporativo? Uma aproximação possível está no dogmatismo: a transformação de determinadas convicções em verdades que não podem ser questionadas, mesmo quando surgem informações capazes de contrariá-las.
Nas organizações, esse comportamento pode aparecer de maneiras discretas. Uma estratégia deixa de ser examinada porque foi escolhida pelo fundador. Um procedimento permanece intocável porque sempre funcionou. Uma objeção consistente é descartada porque veio de alguém com menor posição hierárquica. Em situações assim, a autoridade de quem fala passa a pesar mais do que a qualidade do argumento.
Ter convicções, contudo, não equivale a ser dogmático. Dirigentes precisam estabelecer orientações e sustentar decisões diante de dificuldades. O problema surge quando desaparecem os critérios para reconhecer que uma premissa deixou de ser válida ou que determinada escolha precisa ser revista. A firmeza necessária para executar uma estratégia pode transformar-se em resistência ao aprendizado.
Para a governança, esse risco merece atenção. Conselhos e diretorias necessitam de informações confiáveis, mas também de condições para discuti-las. Se discordar significa deslealdade, as pessoas podem deixar de apresentar dúvidas e alertas. A concordância aparente cresce, enquanto a capacidade de perceber erros diminui.
Uma forma importante de enfrentar o dogmatismo é investir na educação continuada dos líderes. Conhecimentos de administração e finanças são indispensáveis, mas o contato com filosofia, história e outras ciências humanas pode ampliar a compreensão sobre pessoas, instituições e relações de poder. Aprender também significa reconhecer os limites das próprias explicações.
Essa formação ganha força quando encontra práticas organizacionais coerentes: ouvir perspectivas diferentes, testar premissas, registrar razões para decisões e acompanhar seus resultados. A abertura intelectual precisa ter espaço nas reuniões e nas escolhas, além de ser valorizada nos discursos.
Alexandria é, assim, uma indicação para quem deseja refletir sobre os riscos de impedir o questionamento. A aproximação com as empresas não exige equiparar conflitos históricos a divergências profissionais. Ela convida a uma pergunta mais simples: a organização permite que seus dirigentes aprendam, inclusive quando aprender exige rever aquilo em que sempre acreditaram?
Mônica Mansur Brandão
