Edificação corporativa: Art Déco e Art Nouveau (imagem fícticia)
A governança corporativa é, em essência, o modo como as organizações estruturam e equilibram o poder. Muito além de ser um sistema com regras e protocolos, ela reflete, pelo topo da hierarquia de poder corporativo, a alma de uma organização, revelando seu propósito, seus princípios, sua cultura e a forma como se relaciona com a sociedade e os públicos relevantes (stakeholders).
O estilo Art Nouveau, surgido no fim do século XIX, se inspira na natureza, nas linhas curvas e orgânicas, nos vitrais coloridos e nos arabescos que evocam movimento e vitalidade. Aplicado à governança, esse estilo simboliza o lado orgânico, humano e inspirador: a governança que nasce do propósito, dos princípios e da diversidade de olhares. É a governança como arte fluida, que une as partes em um todo coerente.
Já o estilo Art Déco, nascido na década de 1920, traduz a geometria, a racionalidade e o espírito da modernidade. Suas linhas retas, simétricas e monumentais inspiraram prédios, esculturas e joias que buscavam transmitir ordem, progresso e solidez. Na governança, o Déco representa a dimensão técnica, normativa e objetiva, feita de estruturas de decisão, compliance, auditorias e regulamentos claros. É a governança como edifício imponente, que transmite confiança e previsibilidade.
A partir dessas imagens, consegue-se perceber que a governança se constrói entre duas forças. De um lado, o impulso criativo e inspirador do Nouveau, que conecta a empresa ao seu propósito e lhe dá sentido. De outro, a precisão geométrica do Déco, que oferece estrutura e assegura a confiança dos públicos stakeholders. Ambos são indispensáveis.
Mas, haveria um lado predominante? A resposta não é simples. Uma governança essencialmente Nouveau pode ser bela, mas corre o risco de se perder em abstrações e não oferecer mecanismos concretos de controle. Por outro lado, uma governança exclusivamente Déco pode ser sólida, mas fria e burocrática, afastando pessoas e sufocando a vitalidade da organização.
Por isso, a melhor resposta parece ser a busca é uma síntese dinâmica, em que as duas dimensões coexistem. A geometria do Déco precisa ser iluminada pela fluidez do Nouveau, e os vitrais coloridos do Nouveau precisam ser sustentados pelas linhas firmes do Déco. É nesse equilíbrio que a governança encontra sua verdadeira força.
Essa lógica não é apenas estética; ela traduz a realidade das organizações contemporâneas. Vivemos em um mundo que exige, ao mesmo tempo, rigor técnico e humanidade, compliance e propósito, princípios e iniciativas inovadoras. O equilíbrio entre Nouveau e Déco, entre arte e técnica, é o que permite que a governança seja mais do que um manual de conduta: um sistema organizado, mas vivo.
E quando nos voltamos à gestão das operações, camada administrativa subordinada à governança, percebemos que um raciocínio similar se aplica. A gestão é a materialização da governança no dia a dia. Precisa, sim, de métricas, processos e indicadores (Déco), mas também de criatividade, empatia e flexibilidade (Nouveau). Se a governança define diretrizes, a gestão as traduz em modelos de gestão e resultados. Ambas caminham coordenadas entre si, operando nesse duplo registro de precisão e inspiração.
Em última análise, pensar a governança corporativa como Art Déco e Art Nouveau é compreender que nenhuma organização vive apenas de regras, nem apenas de ideais. A beleza e a força da governança surgem justamente da combinação das duas dimensões que emergem dos dois hemisférios do cérebro corporativo, metáfora para uma construção abstrata e coletiva. Assim como na arte, é no encontro entre a geometria e a fluidez que nasce a verdadeira harmonia.
Mônica Mansur Brandão