Scott Adams foi o criador do Dilbert e de outras personagens singulares e divertidas, que refletem culturas organizacionais. As tiras do autor, falecido neste mês de janeiro, publicadas em vários veículos de mídia pelo Planeta, ficaram famosas por retratarem, com humor, o que pode existir em muitas organizações: lideranças desconectadas do trabalho real, burocracia improdutiva, decisões movidas por políticas internas inefetivas e jargões vazios entre outras possibilidades.
Ainda que divertidos, Dilbert e as demais personagens de Adams funcionam como espelhos. O autor propositalmente exagera, a fim de revelar padrões. E padrões, quando se repetem, tornam-se riscos, especialmente para organizações que dependem de líderes efetivos, decisões consistentes, processos claros, resultados conquistados e recompensas justas. Adams certa feita comentou que ele não precisava inventar situações para criar suas tiras, pois o material de criação era provido a ele pelo seu grande público. Material egresso da realidade.
Criado por Scott Adams, o Princípio Dilbert, que deu origem ao livro de mesmo nome – uma das obras sobre organizações mais vendidas do Planeta! – é uma provocação satírica: empresas tenderiam a empurrar pessoas incompetentes para cargos de chefia, como forma de tirá-las do trabalho produtivo. Ao invés de corrigir o problema (treinar, realocar, redesenhar o processo ou desligar), a organização promoveria e transferiria o dano para cima, o que ampliaria o raio de alcance da incompetência injustamente promovida.
Não se pode deixar de reconhecer o valor do trabalho de Adams, como alerta bem-humorado sobre culturas organizacionais: quando se reconhece um padrão, consegue-se tratar as causas, não apenas sintomas.
Sobre polêmicas: nos últimos anos, Scott Adams também se tornou uma figura controversa, fora de sua obra. Declarações dele amplamente criticadas, especialmente em 2023, levaram diversos jornais e distribuidores a interromperem a publicação de suas tiras. Não focalizamos, nestas breves linhas, essas polêmicas.
O foco deste breve texto é a sátira, é como Dilbert, as demais personagens e o Princípio Dilbert ajudam a refletir sobre riscos reais de governança e de gestão, independentemente das controvérsias pessoais do autor. O trabalho de Adams permanece relevante, por expor uma verdade incômoda: incompetência, quando não é tratada, torna-se comando e cultura. Lembrando que a governança corporativa deve impedir que a cultura seja sequestrada por incentivos errados.
Os riscos da incompetência premiada: como mitigar?
Quando a organização normaliza a incompetência em cargos de liderança – preferimos este termo ao invés de chefia –, o problema deixa de ser pontual para se tornar estrutural: a qualidade das decisões cai, a cultura degrada e os bons profissionais desanimam.
Esse tipo de disfunção costuma produzir efeitos previsíveis, tais como piora da qualidade decisória (mais ritos e menos critérios de boa qualidade), incentivos distorcidos (quem entrega resultados, sofre críticas; quem performa politicamente, ascende na hierarquia), baixa responsabilização (errar para cima pode se tornar carreira), risco de compliance (lideranças fracas podem normalizar atalhos e jeitinhos), desalinhamento entre estratégia e execução (o topo decide sem entender o chão) e o impacto na gestão (o dia a dia que sangra sem que pouco ou nada se faça)
Nos planos da governança e gestão, o mundo Dilbert se expressa no cotidiano: lideranças sem bons métodos de trabalho, indicadores e metas mal construídos, comunicação ineficaz, reuniões que se prolongam sem resultados e la nave va. Alguns sinais de alerta podem ser recorrentes, tais como:
- Lideranças orientadas a aparências, por intermédio de apresentações, slogans e outras formas de exibição de ideias, atraentes e necessárias, mas que sem evidências concretas, tornam-se vazias;
- Ambiente que penaliza a excelência e premia aparências;
- Promoções por tempo de casa, política interna ou carisma, não por competência;
- Ausência de trilhas alternativas – o excelente técnico torna-se liderança, sem preparo para tal, sendo que liderança pode ser algo desenvolvido, se a pessoa desejar desenvolver em si esse atributo; e,
- Avaliação de desempenho fraca, sem medir impactos reais de líderes.
Ao mesmo tempo, algumas medidas preventivas podem ser eficazes:
- Construção e desenvolvimento de efetivas lideranças, que operem com base em bons fundamentos administrativos e técnicos. Ser líder não é premiação, mas grande desafio.
- Reconhecimento da busca de excelência e de evolução, por fatos e dados;
- Premiação por justiça, baseada em resultados realmente alcançados;
- Trilhas de carreira alternativas – administrativas e técnicas; e,
- Critérios de avaliação de desempenho justos, com métricas boas e metas adequadas.
Qual legado Scott Adams deixa a nós com o mundo Dilbert?
A nosso ver, ele traduziu a dor silenciosa de milhões de profissionais em linguagem, e a linguagem em consciência. Ao rir, a pessoa reconhece, e ao reconhecer, percebe que o problema pode não estar em si mesma.
Dilbert não se resume a tiras de humor; é um aviso contundente de que organizações adoecem quando aceitam a mediocridade como normal, quando promovem ruído em lugar de direção, quando aceitam que se instale a confusão ao invés de uma cultura de responsabilidade, mérito e coerência.
O humor de Scott Adams, por trás do traço simples, preserva uma missão nobre: proteger o trabalho sério – o esforço honesto de quem entrega, de quem sustenta a organização por dentro, embora nem sempre apareça no palco. Aliás, muitos estarão sempre atrás dos palcos corporativos!
Se a governança deve impedir que incentivos errados sequestrem a cultura, a gestão deve transformar princípios em rotina, método e resultado, com clareza, justiça e constância. Dilbert existe para lembrar que todo caos começa pequeno, quando a incompetência é tolerada, e toda virada começa no instante em que os líderes do topo da organização decidem enxergar – e corrigir – o que antes não viam ou não queriam ver.
Mônica Mansur Brandão