quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O que Maquiavel pode ensinar sobre governança, estratégia e liderança?



O que Maquiavel pode ensinar sobre governança, liderança e estratégia

Poucos autores atravessaram tantos séculos despertando simultaneamente admiração, controvérsia e interpretações equivocadas quanto Nicolau Maquiavel. Escrito no início do século XVI, O Príncipe, obra que atravessou séculos e é considerada por muitos estudiosos uma das referências clássicas da Ciência Política, procurou compreender como o poder é conquistado, exercido e preservado em um ambiente marcado por disputas, mudanças e incertezas.

Transportar as ideias de Maquiavel diretamente para empresas e outras organizações da economia sem contextualizar sua famisa obra seria inadequado. Estados renascentistas e organizações contemporâneas possuem naturezas, finalidades e limites completamente diferentes. Empresas estão submetidas a leis, contratos, estruturas de governança, direitos dos trabalhadores, compromissos com diferentes partes interessadas e padrões éticos que não podem ser relativizados em nome da eficácia.

Feita essa ressalva, algumas observações de Maquiavel continuam surpreendentemente úteis para refletir sobre governança, estratégia, liderança e outros tópicos. Não porque ensinem dirigentes a manipular pessoas, mas porque chamam atenção para temas permanentes da administração: realidade, poder, riscos, preparação, reputação, capacidade própria, adaptação e qualidade dos conselheiros. Priorizamos para fins do presente artigo 10 observações do autor, não exaustivas.

1. Enxergar a realidade como ela é

Uma das ideias mais importantes de O Príncipe emerge quando Maquiavel abandona a discussão sobre governos imaginários e procura aquilo que denomina a realidade efetiva das coisas. Para quem governa, existe substancial diferença entre decidir a partir do mundo que gostaria que existisse e compreender aquele que realmente existe. Essa perspectiva aparece especialmente no capítulo XV. 

Exemplo organizacional: uma empresa perde participação de mercado, mas sua liderança continua repetindo que ela tem produtos excelentes e clientes fiéis. Uma boa governança começa pelos fatos: vendas caíram? Por quê? Surgiram novos concorrentes? O comportamento do consumidor mudou? A tecnologia tornou parte do modelo de negócio obsoleto? Diagnósticos desconfortáveis podem ser mais valiosos que relatórios confortáveis.

2. Depender, tanto quanto possível, das próprias capacidades

Maquiavel dedica capítulos inteiros à fragilidade de quem depende de forças mercenárias ou auxiliares. No contexto político-militar de sua época, sua preocupação era clara: quem entrega a terceiros os instrumentos essenciais de sua sobrevivência pode descobrir, no momento crítico, que não controla aquilo de que depende. 

Exemplo organizacional: terceirizar atividades pode ser eficiente, mas uma organização que entrega a terceiros todo o conhecimento sobre seus clientes, sua tecnologia, seus dados ou seus processos críticos cria dependências estratégicas. Governar também significa identificar quais competências podem ser compradas no mercado e quais precisam permanecer dentro da organização.

3. Conhecer profundamente aquilo que se pretende governar

Ao examinar a conquista de novos territórios, Maquiavel percebe que diferentes sociedades possuem histórias, costumes, estruturas e relações de poder diferentes. Governar uma realidade desconhecida como se ela fosse idêntica à anterior aumenta as possibilidades de fracasso.

Exemplo organizacional: uma empresa compra outra e imediatamente tenta impor seus processos e sistemas e sua cultura. No papel, a integração parece perfeita; na prática, profissionais-chave deixam a organização, clientes se afastam e conhecimentos importantes desaparecem. Antes de transformar uma organização adquirida, é necessário compreendê-la. Aquisição sem compreensão pode destruir precisamente aquilo que justificou a aquisição.

4. Preparar-se durante os períodos de tranquilidade

Maquiavel recomenda que o governante não permaneça inativo nos períodos favoráveis. É justamente quando a situação está tranquila que deve estudar, preparar recursos e compreender experiências anteriores, para que mudanças adversas não o encontrem despreparado. 

Exemplo organizacional: empresas frequentemente começam a construir resiliência durante uma crise. Caixa, sucessão, cibersegurança, continuidade operacional, fornecedores alternativos, gestão de riscos e planos de contingência precisam ser desenvolvidos antes da emergência. Governança não serve apenas para administrar o presente; serve também para preparar a organização para futuros possíveis.

5. Saber quando agir como leão e quando agir como raposa

Uma das metáforas mais conhecidas de O Príncipe afirma que o governante precisa compreender as características do leão e da raposa. O leão possui força, mas pode não perceber armadilhas; a raposa percebe as armadilhas, mas não possui força para enfrentar determinados adversários. Para Maquiavel, uma capacidade sem a outra é insuficiente. 

Exemplo organizacional: um dirigente enfrenta uma negociação complexa. Apenas impor autoridade pode destruir a relação; apenas negociar indefinidamente pode demonstrar incapacidade de decidir. Inteligência estratégica exige perceber interesses, antecipar movimentos, negociar quando possível e exercer autoridade quando necessário. Força sem inteligência pode ser imprudência; inteligência sem capacidade de ação pode ser impotência.

6. Construir autoridade sem produzir ódio

Maquiavel tornou-se célebre pela discussão sobre ser amado ou temido. Menos lembrada, porém, é uma advertência decisiva: independentemente da combinação entre temor e afeição, o governante deveria evitar tornar-se odiado. Nos capítulos XVII e XIX, essa preocupação aparece de maneira explícita. 

Exemplo organizacional: liderança não significa buscar popularidade permanente, mas também não significa criar ambientes de medo. Um gestor pode tomar decisões difíceis, cobrar resultados e estabelecer limites sem humilhar pessoas ou agir arbitrariamente. Nas organizações contemporâneas, autoridade sustentável tende a depender de critérios claros, respeito, coerência e legitimidade.

7. Quando decisões difíceis forem inevitáveis, evitar prolongar continuamente seus efeitos

Em uma das passagens mais controversas da obra, Maquiavel diferencia medidas severas concentradas da repetição constante de danos. Sua lógica política era que agressões sucessivas renovam continuamente o ressentimento, enquanto benefícios distribuídos ao longo do tempo permanecem mais presentes na percepção das pessoas. Trata-se de uma reflexão histórica que precisa ser profundamente reinterpretada antes de qualquer aplicação organizacional. 

Exemplo organizacional: imagine uma reestruturação inevitável. Alterar departamentos hoje, cortar novamente no mês seguinte, mudar estruturas pouco depois e permanecer indefinidamente produzindo insegurança pode destruir confiança e produtividade. Quando possível, decisões estruturais devem ser planejadas, transparentes e executadas com responsabilidade, minimizando sofrimento, respeitando direitos e permitindo que a organização reencontre estabilidade.

8. Compreender o poder da reputação

Maquiavel percebeu que governantes são julgados não apenas por aquilo que fazem, mas também pela maneira como suas ações são percebidas. Reputação, credibilidade e aparência pública ocupam espaço relevante em O Príncipe, especialmente nos capítulos XVIII e XIX. 

Exemplo organizacional: uma empresa pode possuir bons controles internos, mas, se comunica mal uma crise, omite informações relevantes ou contradiz continuamente suas próprias mensagens, sua reputação pode deteriorar-se. O inverso também merece atenção: comunicação sofisticada não substitui práticas responsáveis. Boa reputação sustentável nasce da convergência entre aquilo que uma organização diz, aquilo que faz e aquilo que seus públicos conseguem verificar.

9. Adaptar a estratégia às mudanças das circunstâncias

No capítulo XXV, Maquiavel discute a relação entre virtù e fortuna. Parte dos acontecimentos escapa ao controle do governante, mas isso não significa entregar tudo ao acaso. Ele utiliza a imagem de um rio que transborda: não é possível impedir todas as enchentes, mas é possível construir defesas durante períodos tranquilos.

Exemplo organizacional: uma estratégia empresarial que funcionou durante dez anos pode deixar de funcionar diante de inteligência artificial, mudanças regulatórias, novos hábitos de consumo ou concorrentes capazes de operar com custos diferentes. Persistência é uma qualidade; insistir mecanicamente em uma estratégia que perdeu aderência à realidade pode ser um risco. Estratégias precisam possuir convicção suficiente para serem executadas e flexibilidade suficiente para serem revistas.

10. Escolher bons conselheiros e permitir que a verdade chegue ao poder

Talvez uma das ideias de Maquiavel mais diretamente relacionadas à governança moderna apareça nos capítulos XXII e XXIII. Para ele, a qualidade das pessoas escolhidas para aconselhar um governante revela muito sobre o próprio governante. Maquiavel também alerta contra os aduladores e recomenda criar condições para que determinadas pessoas possam falar com franqueza. 

Exemplo organizacional: imagine um conselho de administração em que todos concordem sistematicamente com o principal executivo. A aparente harmonia pode esconder uma grave fragilidade de governança. Bons conselheiros não existem apenas para confirmar decisões: questionam premissas, apresentam riscos, oferecem perspectivas diferentes e ajudam a identificar aquilo que a liderança talvez não queira enxergar. Quando ninguém pode contrariar o poder, o poder começa a perder informações.

O pensamento de Maquiavel transposto a organizações

Maquiavel escreveu sobre príncipes, Estados, guerras e disputas políticas em uma Itália fragmentada do Renascimento. Não escreveu sobre conselhos de administração, sustentabilidade, compliance, cultura organizacional ou direitos de stakeholders. Portanto, qualquer aproximação entre O Príncipe e a administração contemporânea deve ser compreendida como interpretação e transposição conceitual, e não como aplicação literal de suas prescrições.

Ainda assim, algumas perguntas atravessaram os séculos. A liderança conhece a realidade ou apenas aquilo que seus subordinados permitem que ela veja? A organização tem capacidades próprias ou tornou-se perigosamente dependente de terceiros? Está preparada para crises? Consegue combinar firmeza e inteligência? Protege sua reputação? Adapta-se quando o ambiente muda? Seus sistemas de governança contam com conselheiros capazes de discordar e de fazer perguntas críticas?

A atualidade de algumas reflexões de Maquiavel parece particularmente relevante quando seu pensamento é transposto, com as devidas ressalvas, para o contexto das organizações. Quinhentos anos depois, podemos rejeitar alguns ou muitos dos meios admissíveis no universo político por ele descrito e, simultaneamente, reconhecer o valor de diversas reflexões formuladas pelo autor. Governar organizações exige valores e limites que o mundo contemporâneo desenvolveu, mas continua exigindo algo que Maquiavel considerava indispensável: compreender a realidade antes de tentar comandá-la.


Mônica Mansur Brandão